As recentes eleições presidenciais deixaram um retrato curioso – e revelador – da democracia portuguesa. Tivemos uma primeira volta com 11 candidatos oficiais e 14 nomes no boletim de voto, um número difícil de explicar a qualquer observador externo sem algum embaraço institucional. A presença de candidatos não validados pelo Tribunal Constitucional no boletim eleitoral é, no mínimo, estranha e pouco pedagógica. Não é grave, mas também não é irrelevante.

Ainda assim, se há algo que estas eleições demonstraram foi vitalidade democrática. A pluralidade excessiva pode confundir, mas também mostra abertura, participação e liberdade política. Não é por acaso que Portugal voltou a merecer atenção da imprensa internacional. Uma democracia com demasiados candidatos é, convenhamos, um problema bem preferível ao seu oposto.

O que verdadeiramente preocupa não é o número de candidaturas, mas a reação de alguns dos derrotados. Um deles afirmou que os portugueses “serão confrontados numa segunda volta com uma péssima escolha”. A frase é reveladora. Não acusa diretamente o eleitorado, mas insinua que o resultado produziu algo inferior, quase indesejável – como se o problema estivesse no desfecho democrático e não na incapacidade da candidatura em gerar adesão suficiente.

Este tipo de discurso encaixa num fenómeno cada vez mais comum: o síndrome da personagem principal. A crença de que o eleitorado falhou porque não confirmou as expectativas do candidato. Ora, a democracia funciona precisamente porque o povo não vota para validar egos, estratégias ou carreiras políticas. Vota segundo as suas perceções, prioridades e convicções – que podem ou não coincidir com as dos candidatos.

Entre 11 concorrentes, apenas dois passariam à segunda volta. Isso não é um erro do sistema, é o sistema a funcionar. Ser democrata não é lamentar a “má escolha” dos outros; é reconhecer que a própria mensagem não foi suficientemente mobilizadora. Neste contexto, os candidatos derrotados têm uma responsabilidade acrescida. Não apenas aceitar o resultado, mas contribuir para a pedagogia democrática da segunda volta. Ajudar a clarificar o que está em causa, reduzir o ruído e elevar o debate.

Confesso que não sou particularmente entusiasta de nenhum dos dois candidatos finalistas. Mas esta já não é uma eleição sobre simpatias pessoais. É uma escolha entre modelos. Entre uma democracia liberal imperfeita, mas funcional, e tentações autoritárias disfarçadas de soluções simples.

Quando chegamos aqui, é essencial abandonar o protagonismo e recentrar o debate no essencial. A democracia exige humildade de quem perde, responsabilidade de quem passa e maturidade de quem vota. E, apesar de todos os excessos, Portugal mostrou que continua a saber fazer isso razoavelmente bem.