As tempestades que marcaram o início deste ano em Portugal fizeram mais do que provocar danos materiais. Trouxeram para o espaço público uma realidade incómoda: milhares de casas continuam sem proteção adequada face a riscos que já não são excecionais.
Durante anos, o tema do seguro multirriscos habitação foi discutido no setor segurador de forma bastante técnica e distante do consumidor. Mas os acontecimentos recentes mudaram isso. O debate saiu dos fóruns especializados e entrou, finalmente, na agenda pública. E os números ajudam a perceber porquê.
Estima-se que apenas cerca de metade das habitações em Portugal tenha algum tipo de seguro. E, mesmo dentro desse universo, uma parte significativa tem apenas coberturas mínimas, frequentemente desajustadas do risco real. O exemplo do risco sísmico é particularmente revelador: apenas cerca de 19% das casas estão protegidas contra tremores de terra, de acordo com dados da Associação Portuguesa de Seguradores.
Mas há um problema ainda mais silencioso: o subseguro. Em muitos casos, o capital seguro está abaixo do valor de reconstrução do imóvel, o que significa que, mesmo existindo seguro, a proteção pode não ser suficiente quando é mais necessária.
Hoje, há um consenso alargado sobre o diagnóstico. A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões está a trabalhar no tema, o Parlamento discute soluções e os especialistas multiplicam análises. Mas grande parte das soluções em discussão foca-se na regulação, na obrigatoriedade de coberturas ou em modelos de mutualização do risco.
O momento exige uma visão integrada, que considere regulação, mercado, tecnologia, distribuição e comportamento do consumidor. Exige também colaboração entre os vários intervenientes da cadeia de valor, pois cada um traz conhecimento e perspetivas essenciais para desenhar um plano faseado, com objetivos claros e datas de concretização.
Para isso, importa olhar para os vários ângulos do problema. E um deles não pode ser ignorado: o papel que a tecnologia, a colaboração e a partilha estruturada de dados podem desempenhar na prevenção e na adequação das coberturas, contribuindo para reduzir o atual e grave gap de proteção. É precisamente em contextos como este que se revela a importância do conceito de open insurance.
Open insurance: o próximo passo natural do setor segurador
O open insurance — ou seguros abertos — assenta na partilha estruturada de dados entre seguradoras, mediadores e plataformas tecnológicas, sempre com o consentimento do cliente. Na prática, permite que informações como apólices, coberturas, capitais seguros ou histórico de sinistros possam ser utilizadas de forma integrada, através de sistemas interoperáveis.
O paralelismo com o open banking é evidente: quando os dados passam a circular de forma segura e padronizada, surgem melhores serviços, maior transparência e decisões mais informadas.
No caso dos seguros, o impacto pode ir ainda mais longe — pode traduzir-se em menos casas desprotegidas. Hoje, grande parte do sistema funciona de forma reativa. O cliente contrata um seguro, muitas vezes, com base no preço, e só descobre lacunas quando ocorre um sinistro.
Imagine-se um proprietário com um seguro multirriscos contratado há vários anos. O capital seguro foi definido na altura da compra da casa e o cliente nunca mais o reviu. A seguradora foi atualizando para um valor que hoje se encontra desajustado, por diversos fatores. A sua zona também acumulou um histórico de cheias, ao longo dos anos, e o cliente não incluiu as coberturas necessárias para proteger a casa em caso de inundações.
Num ecossistema de open insurance plenamente funcional, esta situação deixaria de passar despercebida, quer para o consumidor quer para o seu mediador.
Com base na análise de dados, o mediador seria automaticamente alertado para duas fragilidades: um capital seguro desajustado face ao valor de reconstrução, e a ausência de cobertura de inundações numa zona com risco relevante. Com essa informação, poderia contactar o cliente de forma proativa, explicar o gap de proteção e propor uma atualização simples à apólice. E o próprio consumidor poderia, com alguns cliques, ter uma visão clara das lacunas na sua proteção e agir em conformidade.
O papel dos mediadores
Há um equívoco persistente na forma como olhamos para o papel do mediador de seguros. Durante demasiado tempo, foi visto sobretudo como um intermediário comercial — alguém que vende apólices. Mas essa leitura está desatualizada. Pela proximidade que tem ao cliente, o mediador está, na verdade, numa posição única para atuar como consultor de risco.
E isso faz toda a diferença. Porque o problema hoje não é apenas a falta de seguros. É, muitas vezes, a ilusão de proteção. Casas com coberturas incompletas, capitais desajustados, riscos evidentes simplesmente ignorados. Fragilidades que só se tornam visíveis quando já é tarde demais.
Os mediadores conhecem esta realidade. Têm contacto direto com os clientes, acompanham situações concretas, lidam com sinistros. Mas fazem-no, na maioria das vezes, com informação fragmentada. Os dados existem, mas estão dispersos, desestruturados e são difíceis de trabalhar. A análise é feita caso a caso, de uma maneira avulsa, sem uma visão integrada da carteira que permita identificar padrões ou antecipar problemas.
É aqui que o open insurance muda o jogo.
Ao consolidar e estruturar dados, abre-se a porta a uma leitura mais completa e inteligente do risco. Deixa de ser necessário reagir apenas quando o problema acontece. Passa a ser possível identificar fragilidades de forma sistemática, comunicar com contexto e, sobretudo, agir preventivamente.
Isto não é apenas eficiência. É mudança de paradigma.
É passar de uma lógica transacional para uma lógica de acompanhamento. Significa reposicionar o mediador como alguém que ajuda a tomar melhores decisões ao longo do tempo. É preciso assumir, de forma clara: o valor do mediador não está na venda, mas sim na capacidade de interpretar risco e proteger melhor o cliente.
Num país onde milhões de habitações podem estar subseguradas ou com coberturas desajustadas, essa mudança não é um detalhe. É uma necessidade.
Mais do que obrigação, é necessária informação
A discussão sobre o reforço do seguro multirriscos de habitação é urgente e necessária. Mas, para ser eficaz, não pode limitar-se a regras ou obrigações. O open insurance pode desempenhar um papel decisivo neste caminho e, numa fase em que se discutem soluções e planos de ação, seria importante colocá-lo na equação.
Ao permitir que os dados circulem de forma segura e estruturada, abre-se a porta a uma dimensão essencial: a utilização inteligente de dados para garantir que cada casa tem a proteção certa, no momento certo.
Num país onde a casa continua a ser, para muitas famílias, o principal ativo, talvez valha a pena perguntar: por que não começar desde já a construir a interoperabilidade tecnológica no seguro multirriscos e integrá-la no plano que está agora a ser desenhado para reforçar a proteção das habitações em Portugal?