Passavam já três anos da revolução que prometera libertar o povo português de uma ditadura de 48, que no seu rolo compressor oprimira liberdades, saber e vontades. Nesse ano longínquo de 1997, assumia o Professor Alfredo de Sousa a Reitoria da Universidade Nova de Lisboa. Fundada em 1973, em projecto idealizado por Veiga Simão, ministro da Educação de Marcelo Caetano, numa ténue tentativa de abertura do regime, visava criar um modelo de Ensino Superior equivalente ao das modernas e dinâmicas universidades anglo-saxónicas, em detrimento das francófonas e lusófonas.

Lançando mãos à obra, cria a Faculdade de Economia no ano seguinte, 1978. Para o coadjuvar, monta uma equipa de sonho, economistas com experiência e formação internacional, nas pessoas dos Professores Aníbal Cavaco Silva, José António Girão, Manuel Pinto Barbosa e Abel Mateus. Sem dificuldade em competir na área da economia com a mais antiga e conservadora Católica, de um lado, e as recém-tomadas de assalto, pela esquerda mais revolucionária, ISCTE e ISEG, do outro, já a área da gestão exigia um golpe de génio, para com as mesmas poder competir com sucesso

Em contacto com as melhores Universidades americanas, foi a Wharton School of Pensilvânia, Ivy League Americana, selecionada para, com a mesma, montar um MBA de nível internacional em Portugal, tomando a dianteira, relativamente à concorrência directa, na dita área da gestão. Um sucesso de visão, estratégia e execução. As licenciaturas em gestão, no escorrer da experiência e conhecimento provindos do MBA, seriam criadas 15 anos depois, 1995.

Em 2006, depois da entrada em vigor do Acordo de Bolonha, 1999, já a Nova operava integralmente no novo quadro. Percebendo, antes de muitos, o potencial da abertura de tão grande quanto agressivo mercado internacional, cria e adopta – numa decisão de grande risco, já que apostava todas as fichas, leia-se investimento, nesta carta – a marca NovaSBE. Objectivo: competir ombro a ombro, num mercado de concorrência feroz, pela atração dos melhores estudantes a nível global. A prova do sucesso conseguido está nos números que hoje apresenta: mais de metade de alunos estrangeiros, provindos de mais de 100 países, lecionados por mais de metade de professores igualmente estrangeiros, numa procura crescente de candidatos que fazem elevar, ano após ano, as notas e critérios de admissão a níveis nunca antes pensados.

Passados que foram os anos dos primeiros Reitores da Nova, nem sempre foi fácil a relação entre aquele órgão e o da gestão da faculdade de economia, agora NovaSBE. Nesta última quezília, agora pública, ao contrário das anteriores, estamos a falar de uma Marca. Onde, acima visto, a mesma investiu e empenhou tudo o que tinha, numa operação de enorme sucesso, também já visto. Uma Marca que, seja em que língua for, exige clareza, consistência, foco no cliente – que neste caso se quer internacional – para ter sucesso. Criar uma Marca para fora e outra para dentro, elimina os três requisitos atrás falados. Marketing 101. Não é novo. Parece vir já de Confúcio, quem tenta caçar dois coelhos não apanha nenhum.

Não sendo plausível que a Reitoria ignore estes pressupostos mínimos de gestão cuidada, clamar a necessidade de defender a nossa, por todos tão querida, língua materna, para isso invocando a autoridade que por regulação lhe cabe, certamente não pensada para aquilatar da justeza de uma Marca, potenciando a destruição do seu valor, nesta mesma casa construído ao longo de duas dezenas de anos, não parece de bom senso. A língua, materna ou inglesa, não é causa. Outrossim, a ponta de um icebergue de uma luta endógena, onde a parte submersa esconde argumentos que me coíbo de expor, por respeito à instituição e a quem a dirige, numa destruição de valor onde valor deveria ser acrescentado.

Quando Camões, depois de cantar a história daqueles que por actos valorosos se vão da lei da morte libertando, ao longo de 4.401 rimas métrica e rigorosamente pensadas, incorporadas em 8.816 versos, profundo conhecedor da natureza humana, em geral, e da portuguesa, em particular, escolhe a palavra “inveja” como a última das 85.000 que meticulosa, técnica e harmoniosamente trabalhou para contar a ode deste povo que somos, temos que aceitar que em muito do que há 500 anos eramos nos podemos continuar a rever hoje. É o que é e o que é tem muita força.

A minha esperança? Que encarando e aceitando a realidade do que somos, sejamos capazes de também nos vermos tão grandes quanto o poeta igualmente nos cantou e, face ao julgamento e sentença passada pelo mesmo, nessa última palavra por si escolhida, tenhamos a vontade, a força e a coragem para a mesma usar como trampolim de mudança para vôos que façam jus, reconheçam e incorporem em si esse valor que o nosso mais ilustre bardo, em nós, também reconheceu, se para tal tivermos engenho e arte.

Em prol das pessoas de bem, do ensino e do acrescento de valor entre quem valor tem.

Juntos conseguimos!