O atual ciclo político nos Estados Unidos já não pode mais ser interpretado como um desvio conjuntural, um acidente institucional ou uma anomalia transitória. Ele representa, na realidade, a consolidação de uma nova lógica de poder, estruturada em torno de três vetores fundamentais: ruptura, resiliência e resistência.

O primeiro R — a ruptura — é o mais visível, o mais ruidoso e, ao mesmo tempo, o mais corrosivo. Trata-se da ruptura deliberada com os fundamentos da ordem liberal internacional construída no pós-guerra: o multilateralismo, a previsibilidade jurídica, o respeito aos regimes comerciais e a centralidade das instituições. A política externa passa a operar como extensão da política doméstica, instrumentalizada por impulsos eleitorais, narrativas identitárias e ressentimentos económicos.

Não se rompe apenas com tratados. Rompe-se com a própria ideia de compromisso. O comércio internacional deixa de ser visto como espaço de cooperação e passa a ser tratado como campo de batalha. A diplomacia transforma-se em retórica. A negociação cede lugar à intimidação. A ordem dá lugar ao improviso.

O segundo R — a resiliência — emerge como resposta sistêmica a esse processo. Apesar da instabilidade produzida por Washington, o sistema internacional não colapsou. Ao contrário: reorganizou-se. Cadeias produtivas foram redesenhadas, parcerias foram diversificadas, mecanismos alternativos foram criados.

O mundo aprendeu, rapidamente, que já não pode depender da previsibilidade americana. Essa resiliência não é sinal de harmonia, mas de sobrevivência. Ela expressa a capacidade dos atores globais de absorver choques permanentes sem permitir a implosão do sistema.

Ao mesmo tempo, tornou-se cada vez mais claro que não se trata de uma guinada isolacionista episódica, mas de uma reorientação estrutural da política de Estado norte-americana, alimentada por três fragilidades centrais: a perda relativa de competitividade económica, a erosão gradual do poder monetário e os limites crescentes do poder militar como instrumento de coerção sistémica. É a reação de uma hegemonia em declínio.

Nesse contexto, consolida-se o terceiro R — a resistência —, talvez o mais sofisticado e politicamente relevante. Não se trata de confronto direto com os Estados Unidos, nem de alinhamento automático. Trata-se da construção silenciosa de margens de autonomia.

Resistir, hoje, significa: diversificar parceiros, fortalecer arranjos regionais, reduzir vulnerabilidades estratégicas, blindar cadeias críticas e preservar espaços decisórios. É uma resistência institucional, económica, diplomática e tecnológica.

Ela não é ideológica. É sistémica. A instabilidade americana deixou de ser exceção e passou a ser variável estrutural do sistema internacional.

Em síntese, o atual momento histórico é marcado por uma tríade clara: ruptura promovida por Washington, resiliência exercida pelo sistema e resistência construída pelos demais atores. O paradoxo é evidente: quanto mais os Estados Unidos apostam na desorganização como instrumento de poder, mais estimulam o mundo a organizar-se sem eles. Não se trata de antiamericanismo. Trata-se de realismo e pragmatismo.

O sistema internacional não está abandonando os Estados Unidos. Está aprendendo a sobreviver a eles. E a construir um mundo novo.