A transformação digital já não é um horizonte distante, mas sim o presente que molda a nossa forma de viver, de trabalhar e de pensar. O que antes era tecnologia de apoio às empresas e ao nosso próprio dia a dia tornou-se na infraestrutura invisível que sustenta economias inteiras e redefine a relação entre pessoas, empresas e instituições. Mas, à medida que o ritmo da inovação acelera, cresce também a necessidade de questionar o rumo que queremos dar a esta mesma transformação.
Vivemos uma década marcada pela convergência entre inteligência artificial, automação, dados, conectividade e interoperabilidade. Estes segmentos são mais do que meras ferramentas e podemos mesmo afirmar que se posicionam como agentes de decisão, capazes de agir e aprender de forma autónoma. A adoção massiva da tecnologia promete ganhos de eficiência e de produtividade, sem dúvida, mas também levanta questões que vão muito além do plano técnico, chegando à ética, à privacidade, à confiança e à soberania digital.
A regulamentação torna-se um desafio com a velocidade a que a tecnologia avança, mas é preciso inovar com sentido de responsabilidade. A forma como os países integram a inteligência artificial, a computação avançada ou a robótica no seu tecido económico, vai determinar o grau de autonomia e de resiliência das suas sociedades. É por isso que falar de tecnologia é, hoje, falar de estratégia nacional.
Podemos afirmar que Portugal tem dado passos firmes nessa direção. Nos últimos anos, assistimos a um esforço de digitalização dos serviços públicos, à modernização de setores tradicionais e à emergência de um ecossistema tecnológico que começa a ganhar maturidade. Contudo, a verdadeira vantagem competitiva não surge apenas da adoção de novas ferramentas, mas da capacidade de transformar dados em conhecimento e, este, em real valor económico e social.
Assim, considero que existem três princípios que podem orientar esta jornada. O primeiro é o da confiança digital. Num mundo onde cada interação deixa um rasto de dados, a proteção da identidade e da informação tornou-se a base de qualquer relação entre cidadãos e instituições. A confiança será, cada vez mais, a nova moeda da economia digital.
O segundo princípio é o da sustentabilidade tecnológica. A inovação só fará sentido se for compatível com a preservação dos recursos e com a redução das desigualdades. A tecnologia deve ser vista como aliada na eficiência energética, na economia circular e na transparência das cadeias de valor.
Por fim, mas não menos relevante, a capacitação humana. A transformação digital não se faz apenas com algoritmos, mas com pessoas preparadas para interpretar, decidir e liderar num contexto em constante mutação. Investir em literacia digital e talento tecnológico é investir na soberania do futuro. A correta convivência humano/máquina carece da literacia digital para ser assegurada.
Adicionalmente, sabemos que o impacto da computação quântica, da inteligência artificial generativa ou da automação avançada será profundo. Mas a forma como Portugal escolhe aplicar essas tecnologias — com foco na confiança, na sustentabilidade e nas pessoas – vai determinar se esta década será apenas digital, ou verdadeiramente transformadora para o nosso país.
É verdade que a tecnologia pode ajudar a resolver muitos dos desafios da nossa era. Mas continua a ser um meio e não o próprio objetivo. Mais do que pensar no que a tecnologia pode fazer por nós, devemos perceber o que decidimos fazer com ela.