As eleições, que antes pareciam entediantes, transformaram-se num dos momentos mais disruptivos e reveladores das últimas décadas. Comentadores e figuras políticas da convencionada direita sistémica atropelam-se em ávido apoio a António José Seguro, uns porque sempre foram centristas maleáveis sem convicções assinaláveis, agindo por tacticismo pessoal, outros porque ainda se deixam intimidar pelas manobras que a esquerda utiliza há 50 anos para matar à nascença qualquer força política que pretenda dar corpo a valores de direita.

Reina agora um ambiente em que as pessoas se sentem impelidas a apoiar Seguro, mais por ódio ao adversário e por teatro de lealdades, do que por entusiasmo genuíno pelo candidato. Chega-se ao ponto de desconfiar do silêncio e da neutralidade. Ainda que grande parte dos comentadores e figuras de proa dos partidos tentem reduzir a disputa final a uma escolha entre decência e a indecência, ou autoritarismo e democracia, o rigor conceptual obrigará qualquer pessoa séria a procurar uma dicotomia fiel e imparcial que dê alguma ordem racional àquilo que está em jogo neste embate entre Ventura e Seguro. Para começar, distinguir os candidatos entre o lado da decência e o lado da indecência é a arma do desespero de quem tenta, com pudor selectivo e algum preconceito de classe, desqualificar o adversário, depreciando o seu estilo e censurando temas no debate democrático.

Em segundo lugar, é incorrecto afirmar que Seguro é o candidato democrático e que Ventura é uma ameaça à democracia, pois ambos têm legitimidade democrática e operam de acordo com as regras do sistema eleitoral e do pluralismo partidário. É falaccioso imputar intenções a um actor político com o propósito de projectar sobre ele uma visão moralista negativa e, por essa via, desqualificar a sua candidatura no espaço público.

Finalmente, a dicotomia entre “socialistas” e “não socialistas” também poderá não ser a mais adequada, já que: primeiro, porque o termo não tem grande correspondência na realidade, à medida que os programas partidários diluem diferenças entre si; segundo, porque os temas de grande divisão na década de 20 deste século não se prendem com a organização económica da sociedade – daí que seja tão fácil a liberais em toda a linha ou a democratas-cristãos acorreram aos braços de Seguro, que ainda representa a constelação de interesses do Partido-Estado e que subscreve a lógica de reconfiguração institucional woke importada das agendas supranacionais.

A segunda volta das presidenciais pode ser lida como um confronto entre o lado do Partido-Estado que se apresenta como exclusivo guardião dos direitos, liberdades e garantias e o lado da contestação ao status quo. Assim sendo, do lado do Seguro é mais provável encontrar um eleitorado mais enamorado pelo Partido-Estado por dependência de vencimentos, contratos, benefícios ou subsídios, ou seja, um eleitorado mais conformista que beneficia de alguma estabilidade material e que tem medo da mudança. São os eleitores que têm mais a perder do que a ganhar com uma eleição algo disruptiva. Por sua vez, do lado de Ventura é mais provável encontrar eleitores com percursos de vida mais conturbados, que enfrentam dificuldades no acesso à habitação, de manutenção dos seus pequenos negócios, que testemunham o desinvestimento e inércia nos transportes, na saúde e na educação, que são prejudicados por greves constantes e que estão expostos à degradação e insegurança no espaço público. Em geral, são os eleitores que sentem que não têm nada a perder ou que já perderam muita coisa (e aqui incluem-se muitos dos que emigraram).

Ainda que o eleitorado esteja a ser amplamente seduzido através da captura das instituições e do ruído mediático (à semelhança do que sucedeu na 1ª volta, inclusive com Cotrim de Figueiredo), é bem possível que Ventura consiga explorar alguns dos espaços em que os partidos andam desalinhados da identidade das suas bases; falamos aqui, grosso modo, de parte do eleitorado da AD, sobretudo do masculino, de eleitorado muito jovem da IL e de uma faixa de eleitores de Gouveia e Melo que valorizam a ordem, a hierarquia, a eficácia e a segurança, ao mesmo tempo que desconfiam dos partidos tradicionais. Claro que é muito difícil prever a deslocação de votos nestes casos, já que existe um contraste brutal entre a abundante ostentação do voto em Seguro e a inibição temerosa daqueles que tencionam votar em Ventura, com possível repercussão nas sondagens.

Depois de longas décadas que cristalizaram uma ordem partidária monolítica, assistimos a um desalinhamento entre o posicionamento ideológico do eleitorado e a cúpula dos partidos que os têm representado até então. Isto não significa que houve uma radicalização do eleitorado; o PSD e o CDS é que esgotaram a capacidade de albergar o eleitorado que, numa dinâmica de maior concorrência partidária, passa a preferir espaços de afirmação ideológica clara em vez de velhos consensos assentes em ambiguidade e em gestão de interesses de curto prazo. O arco da respeitabilidade que foi mantido sob a batuta dos partidos de matriz social-democrata enfrenta agora a força de uma direita pós-liberal que se baseia essencialmente no nacionalismo soberanista (mas não isolacionista), na retórica anti-sistémica emocional e num certo neotradicionalismo revolucionário que busca revalorizar a família, a hierarquia e a identidade etnocultural da Europa.

A amálgama de personalidades oriundas da chamada área “não socialista” que tem vindo a manifestar a sua preferência por Seguro defende, com frequência, que as eleições em curso escapam à lógica binária esquerda–direita. Aqui, impõe-se, contudo, alguma prudência. Se é verdade que as clivagens ideológicas da nossa época nos desafiam a repensar esta lógica, também é verdade que os actores políticos, ocasionalmente, tentam esquivar-se a esta dicotomia, apenas quando ela deixa de ser útil para a narrativa que querem criar. É por isso que vemos Seguro a esquivar-se aos termos “esquerda” e “socialista” até ter os votos dentro das urnas, enquanto os seus novos apoiantes da direita sistémica verbalizam justificações em nome da “decência”, “moderação”, “estabilidade” e “democracia”, ao mesmo tempo que metem o eixo esquerda-direita na gaveta. Contudo, o eixo esquerda-direita não deixa de existir só porque não dá jeito a algumas pessoas.

O eixo esquerda-direita não é fixo, mas relacional, definindo-se pela posição recíproca dos actores políticos e pelas clivagens dominantes em cada contexto histórico. Determinados elementos assumem caráter indispensável para uma direita que pretenda responder aos complexos desafios demográficos, culturais, tecnológicos e geopolíticos do nosso tempo. É essencial que a direita articule um horizonte normativo ancorado nas suas raízes, promova a criação de descendência e os laços familiares e intergeracionais, proteja as classes médias e populares, frequentemente desmoralizadas e exaustas, e, finalmente, num contexto de multipolaridade, ajuste a sua acção a um realismo que conjugue interesse nacional, coesão cultural e pragmatismo geopolítico.

Nesta 2ª volta, teremos eleitores que irão preferir um Presidente mais disruptivo que poderá estar mais aberto à reforma do Estado e que poderá usar a sua magistratura de influência para dar força às prioridades de coesão nacional, soberania cultural, controlo de fronteiras, continuidade geracional e reforço dos interesses soberanos nos planos europeu e internacional. Por sua vez, os apoiantes da moderação e da continuidade irão preferir… bem, não sabemos; seria injusto imputar motivos e expectativas aos eleitores de Seguro, quando os próprios não fazem questão de entrar em detalhes. Será o lado da monótona concordância servil à agenda supranacional e da neutralidade normativa extrema que, pela própria personalidade pachorrenta de Seguro, poderá favorecer paulatinamente o reforço do Partido Socialista como uma planta trepadeira que se infiltra em todas as estruturas. Qualquer que seja o resultado na noite de 8 de Fevereiro, podemos ter uma certeza: à direita, não ficará pedra sobre pedra.