Num cenário pré-conflito, os empregadores portugueses antecipavam um segundo trimestre com crescimento acentuado nas contratações, mas o conflito no Médio Oriente está a introduzir novos fatores de incerteza no contexto económico global e nacional.

As conclusões do ManpowerGroup Employment Outlook Survey para o segundo trimestre de 2026, cujas conclusões o Jornal Económico (JE) avança em primeira mão, têm por base entrevistas realizadas a 520 empregadores em janeiro. Não refletem essa incerteza nem o impacto das tempestades que atingiram Portugal em final de janeiro e fevereiro.

Os empregadores avançavam uma Projeção para a Criação Líquida de Emprego de +29%, para o período entre abril e junho, mais oito pontos percentuais do que nos primeiros três meses do ano e mais 10 p.p. face ao trimestre homólogo de 2025. Nesse cenário de estabilidade, Portugal situava-se mesmo na metade superior dos países em termos de perspetivas de emprego, embora dois pontos percentuais abaixo da média global (+31%).

Quase metade (44%) dos empregadores que planeavam aumentar as equipas faziam-no devido ao crescimento da empresa. A necessidade de preencher vagas abertas no trimestre passado, ou mesmo em trimestres anteriores, surgia também como motivador, sendo referida por 27% e 20% dos empregadores, respetivamente, ilustrando a continuidade do cenário de escassez de talento no país.

Como razões para a redução do número de colaboradores, os empregadores nacionais destacavam a diminuição da procura (31%) e os desafios económicos (29%). Também a necessidade de reestruturação ou downsizing surgia no topo das motivações, com 21% das respostas. Já o impacto da automação era mencionado por 15%, registando uma descida significativa face ao trimestre anterior.

Todos os setores analisados avançavam com intenções de contratação positivas para o segundo trimestre, e quase todos – com a exceção do setor das Finanças & Seguros – apresentavam uma evolução positiva face aos primeiros três meses do ano.

A Construção & Imobiliário destacava-se como o sector mais otimista, com uma Projeção para a Criação Líquida de Emprego de +46%, registando o maior crescimento entre trimestres (+26 pontos) e uma subida de 9 pontos face ao período homólogo de 2025. Seguiam-se os setores do Comércio & Logística e da Hotelaria & Restauração com Projeções fortes de +34% e +33%, respetivamente, e um crescimento de 4 e 22 pontos percentuais na comparação homóloga, traduzindo o efeito da sazonalidade. Também o setor Industrial (+31%) apresentava intenções de contratação robustas, sinalizando uma estabilização face ao primeiro trimestre e um crescimento de seis p.p. em relação ao mesmo período de 2025.

A contraciclo, e embora com uma Projeção forte de 26%, o setor de Finanças & Seguros era o único a registar uma desaceleração, com uma queda de 12 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior. Entre os setores com intenções de contratação positivas destacavam-se ainda o setor da Tecnologia & Serviços de Informação, com +20%, e o setor Público e de Serviços de Saúde e Sociais, com +17%.

Pequenas e Médias Empresas com as intenções mais fortes

As Médias Empresas revelavam as perspetivas de contratação mais otimistas para os meses de abril, maio e junho, com uma Projeção de +36%, e um crescimento tanto entre trimestres como face ao período homólogo de 2025, de 16 e 14 p.p., respetivamente. Também as Pequenas Empresas apresentavam intenções de contratação robustas: +33%, e o maior crescimento face ao trimestre passado, com uma evolução de 19 p.p.

Em contraste, as Grandes Empresas entre 1000 e 4999 trabalhadores e as Grandes Empresas de mais de cinco mil trabalhadores mostravam as intenções mais conservadores, com +16% e +12%, respetivamente, e um abrandamento de 5 p.p. face ao primeiro trimestre.

O ManpowerGroup Employment Outlook Survey mostra que todas as regiões apresentam expectativas de criação de emprego positivas para o segundo trimestre de 2026. A Região Centro lidera as intenções de contratação, com uma Projeção para a Criação Líquida de Emprego de +37%, mais 12 p.p. face a janeiro a março e de 13 p.p. em termos homólogos. Em seguida surgem a Região Norte (+32%) e o Grande Porto (+31%) e a Região Sul, com um crescimento entre trimestres, de 7 pontos percentuais, com a Projeção a alcançar os 30%.

2 PERGUNTAS a Rui Teixeira, country manager do ManpowerGroup Portugal

1. Em que medida as intenções de contratação em alta que o estudo aponta podem vir a ser abrandadas pela necessidade de mão de obra?

Embora as intenções de contratação permaneçam elevadas, a disponibilidade limitada de talento e o desajuste entre competências existentes e necessidades das funções podem condicionar a concretização desses planos. Segundo dados do ManpowerGroup, 82% dos empregadores em Portugal enfrentam dificuldades em encontrar candidatos, levando muitas empresas a prolongar os processos de recrutamento ou a ajustar o ritmo de contratação. Efetivamente, e de acordo com o ManpowerGroup Employment Outlook do segundo semestre, entre os principais motivos para justificar as contratações previstas no próximo trimestre, 27% das empresas declararam serem contratações para procurar preencher vagas lançadas já no trimestre passado e 20% para preencher vagas lançadas em trimestres anteriores.

Este efeito é particularmente percetível em setores como as Utilities, a Indústria, o Comércio e a Logística, as áreas de Serviços Profissionais, assim como no Setor Público e nos Serviços de Saúde e Sociais, onde a escassez de candidatos para determinadas funções é mais acentuada. A transformação digital e a consequente redefinição de funções intensificam este cenário, aumentando a procura por competências específicas que nem sempre estão imediatamente disponíveis.

Para responder a estes desafios, muitas empresas têm reforçado estratégias de formação, requalificação e desenvolvimento de competências, preparando o talento disponível para atender às novas exigências do mercado.

2. Um mês depois da passagem da depressão Kristin e do comboio de tempestades que lhe seguiu pelo país, a atividade continua limitada. Mas qual será o impacto económico da destruição causada?

No imediato, os dados do indicador diário de atividade económica do Banco de Portugal mostraram uma redução na atividade, com um crescimento abaixo do ritmo registado antes das tempestades. A mais largo prazo, é possível que os esforços de recuperação permitam um impacto positivo no crescimento do PIB, que anule esse abrandamento.

Ao nível do emprego, e com base no contacto direto com os clientes na região, não estamos a observar uma evolução muito significativa no recurso a medidas de ajustamento, com um número inexpressivo de pedidos de lay-off ou medidas alternativas do IEFP. Isto sugere que, apesar do contexto difícil, a reação do tecido empresarial tem sido relativamente contida e focada na continuidade da atividade. Existe, por parte dos empresários, vontade de recuperar e manter equipas, mais do que uma tendência generalizada de retração no emprego.

Neste sentido, fundamental assegurar a máxima celeridade possível no esforço de reconstrução, reativando acessos a redes elétrica e de telecomunicações e acelerando os esforços de limpeza e de reconstrução de infraestruturas, de forma a permitir às empresas retomarem a sua atividade normal. Adicionalmente, e na continuidade das ações já anunciadas pelo governo, seria também será importante continuar a promover e reforçar o acesso a mecanismos financeiros que permitam às pequenas e médias empresas fazer face aos custos da tempestade, limitando a sua exposição ao endividamento.