As sucessivas tempestades que atingiram Portugal nas últimas semanas não são apenas um fenómeno meteorológico, são um alerta económico em que cada evento se traduz em custos diretos para o Estado, prejuízos para empresas e perdas de rendimento para famílias. O “novo normal” climático há muito que deixou de ser uma abstração científica para se tornar uma variável central na equação das finanças públicas e da competitividade nacional.
A ciência é clara: o aquecimento global aumenta a capacidade da atmosfera de reter humidade, intensificando episódios de precipitação concentrada e alternando-os com períodos de seca prolongada. Mas o debate público continua excessivamente centrado na reação a emergências — reparar estradas, compensar prejuízos, reconstruir habitações — quando o verdadeiro desafio é estrutural, de prevenção. Persistimos num modelo reativo que é financeiramente insustentável.
Segundo o McKinsey Global Institute, Portugal terá de multiplicar por dez o investimento anual em adaptação climática até 2050 para enfrentar o aumento da exposição ao calor extremo, aos fogos florestais, à seca, e às cheias. Este número pode parecer elevado, mas o custo da inação é mais caro.
O investimento em adaptação não deve ser visto meramente como despesa, mas como investimento na gestão de risco e na proteção de ativos. Infraestruturas públicas, cadeias de abastecimento, turismo, agricultura, habitação e seguros dependem da resiliência territorial. Num país onde várias regiões e bacias hidrográficas podem ser afetadas em simultâneo, o impacto sistémico torna-se evidente através de interrupções logísticas, perdas agrícolas, aumento de prémios de seguro e pressão sobre o orçamento do Estado.
É também devido a este contexto que o restauro da natureza deve deixar de ser apenas uma bandeira ambiental e passar a ser uma estratégia económica. Ecossistemas saudáveis funcionam como infraestruturas naturais de proteção. Zonas húmidas mitigam picos de cheia, florestas autóctones estabilizam solos e reduzem erosão, paisagens em mosaico reduzem risco de incêndio, sistemas dunares e sapais amortecem a energia das ondas. São soluções duradouras, com custos de manutenção frequentemente inferiores aos das infraestruturas “cinzentas” e com benefícios colaterais: armazenamento de carbono, biodiversidade, turismo sustentável e melhoria da qualidade de vida urbana.
O desafio é claro: urge integrar soluções baseadas na natureza nos planos nacionais, regionais e municipais; orientar o ordenamento do território para a minimização de riscos naturais e da vulnerabilidade das populações e das economias; promover cidades com solos permeáveis e mais espaços verdes; e mobilizar investimento público e privado através de instrumentos financeiros que valorizem a resiliência. A adaptação climática deve tornar-se um eixo estratégico da política económica, não apenas da política ambiental.
Num país com dívida pública ainda elevada e recursos limitados, cada euro investido deve gerar retorno: e o restauro ecológico faz precisamente isso, com 4 a 38 euros de retorno por cada euro investido. Investir em restauro ecológico é reduzir passivos futuros, estabilizar setores produtivos e proteger capital natural — um ativo muitas vezes invisível nas contas nacionais, mas determinante para o crescimento.