Os horrores da História já não são inscrições temporais do pretérito, mas, sim, escritas do tempo presente, com imagens e sons. São episódios transmitidos em directo e acessíveis a qualquer hora, dia e lugar, através de um dispositivo electrónico. São actos contínuos e repetidos, sem direito a uma pausa ou esquecimento geral. Estamos, assim, ligados ao tempo do horror e, consequentemente, cientes que, em cada instante, uma vida deixou de ser vida e passou a ser um corpo sem direito a viver.

A história, enquanto facto do presente, coloca-nos perante um juízo crítico de viver a barbárie como escolha que é fruto de uma decisão política calculada que se fundamenta num conjunto de princípios morais. Estes princípios são pensados e, sobretudo, defendidos como universais. Por isso, em nome dessa categoria universal podem-se cometer horrores, através da guerra e da imposição de modelos políticos e regimes políticos aos outros povos e sociedades.

Enquanto o horror ocorre no tempo presente, somos, assim, convocados a lidar com a nossa consciência, sem direito à omissão das imagens e sem uma janela de fuga dos sons da violência, o que nos impossibilita de mirar o céu e assobiar para o lado. Não podemos, assim, fingir a dor que deveras sentimos, ao contrário do poeta. Mas, assumimos a posição estética do sujeito poético que faz da dor alheia a sua dor. Por isso, adoptámos uma indignação estética do poeta, visto que somos incapazes de mobilizar a indignação actuante, porque conservamos um sentido de justiça relativo e, objectivamente, selectivo.

Assim, a morte dos condenados da terra é um mero acto estatístico ou um efeito colateral da guerra. É uma morte sem rosto e sem dignidade. É um não-sujeito. Não gera, portanto, empatia ou simpatia geral. Não podendo, assim, configurar como um acto de terror ou de terrorismo de Estado.

O pretérito da História remete-se a um passado, mas, o presente justifica-se por omissão colectiva da nossa parte. Reveste-se de um silêncio covarde e cúmplice, em última instância. Outros assumem mesmo um sentido cúmplice quando avançam um conjunto de argumentos falsos de uma suposta superioridade moral ou de uma justiça imposta pela bomba. Deixando, assim, de ser a dor da pobre ceifeira para uma condição de miséria, de vidas desfeitas em meros pedaços de carne em cada bomba. Resvalando para uma epopeia do horror que entra em cada canto das nossas casas, em cada hora e cada instante. Por ser do tempo presente, se fosse o pretérito estaria a repousar no móvel esquecido. Saberia a uma velhice e, facilmente, poderia ser esquecido.