Ao longo dos últimos dois anos tive o privilégio de escrever regularmente neste espaço. Agradeço ao “Jornal Económico” e aos leitores a oportunidade de refletir, de forma livre, sobre alguns dos principais desafios da economia portuguesa. Por razões de agenda e de disponibilidade, chegou o momento de fazer uma pausa nesta colaboração. Aproveito esta última crónica para revisitar brevemente algumas das ideias que aqui procurei sublinhar.
Uma das mais recorrentes foi a necessidade de Portugal crescer mais e melhor. Apesar de períodos recentes de maior dinamismo, a economia portuguesa continua a crescer pouco em termos históricos e comparativos – no contexto da União Europeia (UE), espaço económico onde nos inserimos -, revelando um problema estrutural de produtividade que limita o nosso nível de vida relativo, colocando-o no fundo da UE. Desde o início do milénio, o crescimento médio anual tem sido modesto no contexto europeu, o que ajuda a explicar a persistente dificuldade em convergir com os países mais ricos da UE.
Outra preocupação que destaquei foi a natureza pouco sustentável do nosso modelo de crescimento e da dinâmica recente, muito assente em fatores temporários. Em particular, a dependência crescente da nossa economia do turismo de massas – com baixa produtividade e valor, concentrado no território e causador de pressão sobre infraestruturas (como a habitação), alguns serviços públicos e o ambiente -, que teve forte expansão após a pandemia (mas já está a abrandar), bem como dos fundos europeus, cuja magnitude começará a baixar a partir de 2027. Diversificar a base produtiva, reforçando a indústria e serviços de alto valor acrescentado, continua a ser essencial para reduzir vulnerabilidades, elevar a produtividade e criar mais postos de trabalho qualificados para reter os nossos jovens talentosos.
Também procurei chamar a atenção para a elevada carga fiscal sobre o capital e o trabalho, que penaliza a competitividade das empresas e dificulta a atração e retenção de investimento e talento.
Em várias ocasiões sublinhei igualmente que muitos dos problemas estruturais do país não se resolvem com medidas avulsas ou de curto prazo. Questões como a eficiência do Estado, a sustentabilidade das contas públicas ou a qualidade dos serviços públicos exigem reformas consistentes e persistentes, capazes de melhorar o funcionamento da economia e reforçar a confiança dos cidadãos.
No fundo, o diagnóstico que procurei transmitir foi relativamente simples: Portugal precisa de um novo ciclo de reformas orientadas para a produtividade, a competitividade e a coesão territorial. Sem esse impulso, corremos o risco de prolongar um padrão de crescimento insuficiente para sustentar o Estado social e melhorar o nível de vida das novas gerações.
Termino, portanto, com a mesma convicção com que comecei estas crónicas: Portugal tem recursos, talento e instituições para fazer muito melhor. O que falta, muitas vezes, é a capacidade coletiva de melhorar e aprofundar diagnósticos conhecidos e, sobretudo, de os transformar em reformas concretas e duradouras.
Foi um privilégio partilhar estas reflexões convosco.