É o segundo conselheiro especial de um governante a ser detido este ano em São Tomé e Príncipe na sequência de um mandado da Interpol.

O terceiro, se se recuar até 2022, quando a detenção do empresário alemão Stephan Welk colocou a nomeação deste tipo de conselheiros e a atribuição de passaportes diplomáticos aos mesmos em discussão pública.

O assunto volta agora a estar sob fogo, a meses das eleições presidenciais e legislativas.

Ignacio Purcell Mena, ex-conselheiro especial do atual primeiro-ministro, Américo Ramos, foi detido esta terça-feira, 10 de março. Segundo a Polícia Judiciária são-tomense, o empresário era procurado pelas autoridades espanholas, indiciado pelos crimes de organização criminosa, burla, crime contra a fazenda pública, branqueamento de capitais e falsificação de documento comercial. Foi detido no distrito de Lobata, em sua casa.

A detenção concretiza-se quase um mês depois de ter sido afastado pelo primeiro-ministro. A exoneração do empresário foi assinada em 12 de fevereiro, de acordo com informação prestada pelo próprio chefe de Governo aos jornalistas horas depois de a detenção ter sido tornada pública, e conforme um despacho do seu gabinete.

Por essa altura, meados de fevereiro, Stig Carl-Magnus (ou Karl, como consta do passaporte diplomático são tomense) Carlsson, outro ex-conselheiro especial, desta vez do presidente da República, Carlos Vila Nova, estava prestes a ser detido num hotel na ilha do Príncipe. Foi-o a 23 de fevereiro. Já não ocupava essas funções junto da Presidência desde 4 de fevereiro, fez saber Vila Nova num comunicado oficial no dia 21. Dias depois, confirmou que Karl Carlsson estava envolvido em projetos importantes para o país nas áreas da saúde e da segurança marítima no Golfo da Guiné.

Era procurado “pela prática de crimes de ofensas corporais grave, detenção e uso de armas proibidas, violação sexual grave com recurso a administração às vítimas, contra a sua vontade expressa e mediante uso de força, de drogas incapacitantes da sua resistência”, de acordo com a PJ.

Tanto o Presidente da República como o primeiro-ministro são-tomenses garantiram que as respetivas escolhas de conselheiros especiais foram feitas após concluídas as diligências necessárias sobre os dois empresários, tendo ambos sido exonerados assim que tomaram conhecimento dos indícios e referenciação pela Interpol.

Ignacio Mena, que se apresenta como um empresário filantropo ligado à indústria energética, era procurado pela justiça espanhola por suspeitas de fraude de mais de 300 milhões de euros pelo IVA da venda de combustíveis. De acordo com um despacho de agosto de 2025, o cidadão chileno terá sido nomeado inicialmente para o gabinete da Assembleia Nacional, na altura presidido por Celmira Sacramento e hoje por Abnildo d’Oliveira, que terá apresentado Ignacio Mena quando era vice-presidente do Parlamento.

Do lado do Governo, Américo Ramos revelou que conheceu o empresário em meados de 2025. “Apresentou-se como um investidor e alguém com capacidade de mobilizar investimento” para o país. “Foi-me confirmado que não havia nenhuma referência ilícita a circular nos serviços internacionais de polícia”, pelo que avançou com a sua nomeação em setembro.