“A plataforma de moda online Shein continua a vender roupa e calçado com substâncias químicas perigosas acima dos limites permitidos pela legislação europeia, apesar de alertas anteriores”. A denúncia é feita em comunicado pela organização ambiental Greenpeace, com base numa investigação divulgada a 5 de março.
De acordo com testes realizados em janeiro de 2026 pelo Instituto Ambiental de Bremen, a pedido da Greenpeace Alemanha, 25 de 31 produtos analisados continham substâncias perigosas em níveis superiores aos permitidos pelo regulamento europeu relativo às substâncias químicas, conhecido como REACH Regulation. Em alguns casos, os valores ultrapassavam os limites legais até 3.115 vezes.
Os produtos testados eram iguais ou muito semelhantes a artigos que já tinham sido sinalizados pela organização ambiental em novembro de 2025 e que, segundo a empresa, deveriam ter sido retirados da plataforma.
Promessas sem efeito
Após a primeira denúncia, a Shein afirmou que retiraria os produtos afetados e garantiu que o cumprimento das normas europeias e a segurança dos consumidores eram prioridades. No entanto, segundo a nova análise, apenas o produto específico identificado foi removido, permanecendo disponíveis variantes praticamente idênticas.
Entre os artigos analisados em janeiro estavam quatro peças exatamente iguais às testadas anteriormente, incluindo um casaco que voltou a surgir na mesma loja online. “No caso de um modelo de sandálias, outras nove cores continuavam à venda, todas com a mesma palmilha que não cumpre os requisitos legais.”
Moritz Jäger-Roschko, especialista em economia circular da Greenpeace, acusa a empresa de ignorar os avisos. “A audácia da Shein é impressionante. Perante o Parlamento Europeu, promete proteger os consumidores, mas na prática continua a vender produtos fortemente contaminados”, afirma.
Químicos associados a doenças
Entre as substâncias identificadas estão ftalatos, usados como plastificantes, e os chamados PFAS, conhecidos como “químicos eternos” devido à sua elevada persistência no ambiente. Estas substâncias têm sido associadas a problemas de saúde como cancro, perturbações reprodutivas, alterações no desenvolvimento infantil e enfraquecimento do sistema imunitário.
Segundo a Greenpeace, a exposição pode ocorrer através do contacto com a pele, da transpiração ou da inalação de fibras libertadas pelos tecidos. Além disso, quando as peças são lavadas ou descartadas, os químicos podem entrar nos rios, no solo e na cadeia alimentar.
Ana Farias Fonseca, coordenadora de campanhas da Greenpeace Portugal, considera que o caso demonstra falta de responsabilidade da empresa. “Ao manter no catálogo artigos perigosos para a saúde, a marca continua a agir de forma negligente relativamente à saúde das pessoas e do ambiente”, afirma em comunicado.
Modelo de negócio levanta questões legais
A investigação aponta também para uma lacuna legal associada ao modelo de venda direta ao consumidor utilizado pela Shein. Neste sistema, os produtos são enviados diretamente da China para compradores na União Europeia.
Do ponto de vista jurídico, isso significa que o consumidor é formalmente considerado o importador, ficando responsável por garantir que o produto cumpre a legislação europeia. Segundo a Greenpeace, esta prática permite à empresa evitar parte da responsabilização prevista na legislação química europeia.
A organização ambiental defende que a União Europeia deve aplicar a legislação sem exceções a todos os produtos vendidos no mercado europeu e sancionar empresas que violem repetidamente as regras.
Apelo a legislação contra a fast fashion
A Greenpeace pede ainda a criação de uma legislação mais robusta contra a fast fashion, inspirada em iniciativas já discutidas em França. Entre as medidas defendidas estão limites à sobreprodução, restrições à publicidade e maior responsabilização das empresas pelo impacto ambiental e químico dos seus produtos.
“O caso Shein mostra que a autorregulação voluntária destas empresas não funciona”, afirma Jäger-Roschko. “Enquanto puderem lucrar com roupa descartável e com substâncias químicas perigosas, serão necessários limites legais claros.”