
Há quase 50 anos, Richard Nixon aderiu à estratégia internacional, segundo a qual, se os líderes estrangeiros estivessem convencidos de que as suas ameaças extremas eram críveis, ele teria maior influência. Nixon cunhou o termo “teoria do homem louco”, explicando que queria que os norte-vietnamitas acreditassem que ele era capaz de tudo para pôr fim à Guerra do Vietname — inclusive o uso de armas nucleares.
Muitos analistas têm referido que Donald Trump começou a adotar esta teoria quando se candidatou pela primeira vez à presidência dos EUA, em 2016, e abraçou a ideia de que seria um presidente diferente, disposto a ser imprevisível, com a dose certa de loucura.
Já no segundo mandato, o presidente americano elevou o seu gesto de homenagem a Nixon a novos patamares ao ameaçar apagar o Irão como civilização. Uma ameaça cruel que fez aumentar os alertas para o perigo de a Casa Branca ter um inquilino “narcisista maligno” e um presidente demente, o que já levou o ex-diretor da CIA a juntar-se ao crescente número de vozes que pedem a destituição do presidente. John Brennan alega que ele é inapto para o cargo, argumentando que a 25ª Emenda da Constituição dos EUA foi escrita a pensar em Donald Trump”.
É, assim, amplificado o alerta do risco de ter à sua disposição o botão nuclear que já lhe serviu nas ameaças de fazer o Irão “voltar à Idade da Pedra”. A ameaça do rufia, ao estilo TACO, não se concretizou, recuando quando Teerão e Washington concordaram com um cessar-fogo e a reabertura do estreito de Ormuz, que tornou a economia mundial perigosamente refém. Falhado o acordo para pôr fim à guerra, o errático Trump anuncia o bloqueio naval norte-americano ao Irão, que antes queria abrir, acusando a NATO de não estar ao lado dos EUA em tamanha empreitada. Trump não quer aliados, mas vassalos, numa guerra que iniciou para depois ameaçar bombardear o Irão para reabrir o estreito de Ormuz… que já estava aberto antes de começar a bombardear o país.
O oscilar entre a narrativa de impotência e a exibição súbita de controlo absoluto revela, mais uma vez, a desorientação estratégica e a falta de coerência de Trump, cuja erosão de credibilidade internacional evidencia cada vez mais o suicídio hegemónico dos EUA. Um declínio autoinduzido por Trump, que está num beco sem saída, com a escalada de ameaças resultar… em nada.
Após seis semanas de comportamento insano, com tweets ameaçadores, desdizendo-se em poucas horas na sua rede Truth Social, e repletos de palavrões, o cessar-fogo não dissipa as dúvidas das suas faculdades mentais. Pelo contrário, aumenta a preocupação nos EUA sobre a possibilidade de demência e acuidade mental do presidente dos EUA. Um receio que já foi objeto de chacota pelas embaixadas iranianas. Longe da diplomacia, usaram a rede social X para lhe chamarem “velho” e “lunático”, apelando ironicamente: “tragam-lhe uma camisa de forças”.
Trump, que se compara a Jesus, acredita na “Teoria do Louco”, mas adensa-se a dúvida: a volatilidade que demonstra é genuína ou uma atuação? Gosta de pensar que a sua imprevisibilidade é uma vantagem, mas está a travar guerras e a desestabilizar a economia global sem nenhum plano, com a sua disposição para o ataque a continuar a ser em breve sentida noutro país qualquer. Os seus exageros nas últimas semanas revelam a crescente gravidade dos traços de personalidade paranoide, com falta de empatia e sadismo. E acentuam os perigos de reduzir a política ao uso da força. A arte de governar requer não apenas conquistar o poder, mas mantê-lo. O que diria Maquiavel a Trump?