Há uma guerra em curso em Portugal. Não na Ucrânia nem no Médio Oriente, mas aqui mesmo, em Portugal. E fala-se pouco dela. Todos os anos morrem mais de 470 pessoas em acidentes de viação. Tem sido assim nos últimos quatro anos, desde o fim da pandemia, de forma muito consistente, o que nos põe no lote dos maus alunos da União Europeia, 30% acima da média.

As mortes na estrada são cinco vezes mais do que os homicídios. E como a idade média de quem está envolvido nos acidentes é baixa são mais de 16 mil anos de vida perdidos por ano. Um desperdício, que se torna ainda pior, porque temos de contabilizar mais de 2.500 feridos graves e mais de 42 mil feridos ligeiros. A guerra civil nas estradas portuguesas provoca 45 mil vítimas anualmente. Um absurdo.

Por isso, quando o ministro da Administração Interna apresenta medidas de combate à sinistralidade e as considera como um desígnio social, temos de aplaudir, elogiar. Que regresse a Brigada de Trânsito da GNR, que se reforme o quadro penal e contraordenacional e se combata a prescrição dos processos. Mas que também se atente a que a alteração dos comportamentos de risco passa pela educação, pela formação. Não há volta a dar. E pelo compromisso. Morre-se muito mais nas estradas do que por crimes violentos e não vemos os partidos a acenar com a bandeira de minorar este flagelo.

Aceitamos esta tragédia como parte natural do risco da mobilidade, que recusamos em qualquer outra situação. Até nas operações militares, de risco, por natureza, em que as raríssimas fatalidades são tratadas como eventos excecionais e investigadas a fundo. Desde que não ocorram na estrada.