
1 As petrolíferas e as gasistas estão a ganhar muito dinheiro com a guerra. Normal, dirão uns: ganham quando podem e esta é uma dessas ocasiões de ouro, sendo um negócio de capital intensivo com uma boa dose de risco, estas empresas têm de ser bem remuneradas ou as ineficiências (má gestão, fracos incentivos, mau serviço) serão pagas por todos mais lá à frente. Não é nada disso, dirão outros: estes gigantes estão a ganhar à custa da pele dos consumidores, não têm freio, a ganância corre-lhes nas veias, money, money, money. Quem tem razão nessa disputa pelo território moral? Depende obviamente da perspetiva. Claro que quem pode ganhar, ganha – você não o faria? –, até porque a entrada nestes negócios é cara e porque sendo raros globalmente os prejuízos, eles acontecem e exigem gestão como deve ser, não são estruturas nada fáceis, o sistema coloca um preço de entrada e o funcionamento operacional muito elevado. Portanto, neste caso, estou do lado dos lucros, embora seja surpreendente que a empresa que mais esteja a faturar seja precisamente a Saudi Aramco, da Arábia Saudita, alvo dos mísseis e drones do Irão. O país sofre, a empresa que manda no país lucra – não se pode agradar sempre a todos. É por isso que as taxas sobre lucros extraordinários fazem sentido em ocasiões como esta, embora, no fim, os governos portugueses fiquem viciados no dinheiro fácil (não lhes custa a ganhar) e o extraordinário passa logo a definitivo, o que não faz sentido nenhum e nos deve levar a desconfiar com fundamento da desculpa excecional. Seja como for, no fim pagam sempre as pessoas.
2 Como aqui já escrevi, Bruxelas quer criar campeões nacionais para tornar a União Europeia (UE) mais competitiva. Queixámo-nos tanto da indolência dos 27 que o velho elefante – velho elegante? – está finalmente a mexer-se. Veja-se que até queremos gerir melhor a relação com a China, ou seja, Bruxelas pretende limitar a compra de empresas europeias por capital chinês em setores estratégicos, está decidida a exigir reciprocidade quando houver luz verde nacional para esses negócios, além de pôr preto no branco a obrigação de acesso real à tecnologia – tal como a China fez há bem poucos anos aos europeus e americanos. A obrigação de não tornar as empresas da UE meros centros de montagem de tecnologia (baterias, painéis solares, etc.) já construída da China é a exigência final. Claro, cada país terá a decisão final, o que permitirá a desunião habitual. Ainda assim, se juntarmos a intenção de criar o 28º regime, o sentido da política está certo. Hoje há 27 ordenamentos nacionais diferentes; uma empresa que esteja em vários países tem de adaptar contratos, fiscalidade, regras societárias, etc., em cada mercado. Um horror que custa dinheiro e nos tira competitividade global. Não há verdadeiramente um mercado único, apesar da retórica política, e esta mudança será mesmo um enorme safanão ao statu quo. Qual o problema? Em termos estatísticos e legais da UE, as 10 maiores empresas portuguesas são classificadas como grandes empresas, o que é bom. Mas do ponto de vista económico e de escala competitiva elas situam‑se no patamar inferior das grandes empresas, muitas vezes com dimensões mais próximas de grandes empresas regionais do que dos verdadeiros campeões europeus. Simplificando: quando – e se houver – uma onda de fusões transnacionais seremos quase sempre presas e não predadores. Portanto, cuidado com o que se deseja, não vai ser possível agradar a todos, embora me pareça que o destino é inevitável. Orgulhosamente sós… nem na América.