A escalada de tensão entre Israel/EUA e o Irão voltou a colocar o Médio Oriente no centro das preocupações globais. Para além da leitura militar, diplomática ou energética, há outro tipo de consequências menos visível: os investidores não saem da equação, mas tornam-se mais seletivos. O capital não desaparece, mas reforça a vigilância e exige proteção.
“Tem medo quando os outros são gananciosos e sê ganancioso quando os outros têm medo”, diz Warren Buffet. Em tempos de incerteza, esta máxima deixa de ser apenas um bom conselho e passa a ser disciplina obrigatória.
O investimento continua a acontecer, mas fortemente ancorado em cláusulas de material adverse change que permitem rever ou travar operações perante acontecimentos fora do perímetro do risco próprio dos negócios. Os contratos podem e devem antecipar choques de realidade.
O quadro legal português permite-o no regime da alteração anormal das circunstâncias, que admite modificação ou resolução de contratos quando a base negocial é grave e imprevisivelmente afetada.
Depois, existe um segundo nível: o das narrativas institucionais. Em momentos de tensão, os mercados reagem a sinais. No caso dos Emirados Árabes Unidos, decisões rápidas e comunicação clara não eliminaram risco, mas tornaram-no compreensível e gerível.
O direito e a política convergem: os contratos estruturam o risco e as instituições estabilizam expectativas. Ambos evitam o temível fenómeno do pânico.
Também no plano casuístico esta exigência é manifesta. Um contrato não deve ser uma minuta ajustada. Um contrato bem elaborado exige compreender o caso concreto e testá-lo no pior dos cenários. Entre equilíbrio negocial e worst case scenario, há trabalho jurídico incompatível com automatismos ou clausulados-tipo.
Neste momento de volatilidade, países como os Emirados não se darão ao luxo de falhar: há demasiado planeamento estratégico traçado, demasiado capital atraído, demasiados projetos realizados, expectativas criadas e vidas acolhidas.
O que está em causa já não é crescimento, é credibilidade perante investimentos estruturais, fluxos financeiros e a confiança de quem ali decidiu viver ou investir. E se há algo que a história recente demonstra é a capacidade das suas lideranças responderem com rapidez, visão e execução. Mais do que só resistir, reposicionam-se.
O que os mercados esperam agora é ver a capacidade de transformar incerteza em estratégia.
Estaremos preparados para o mesmo exercício? Continuamos excessivamente centrados na reação imediata, quando o decisivo é antecipar, estruturar e saber comunicar em cenários de incerteza. Planos de contingência, contratos robustos, mensagens institucionais claras e uma visão coerente não são acessórios: são o que separa quem reage e quem ressurge.
Os turistas podem recear e o capital pode aguardar, mas os mercados seguem invariavelmente quem sabe o que está a fazer. E, no fim, distinguem sempre entre visão clara e visão turva.