O presidente norte-americano está dividido entre o calendário eleitoral (as eleições intercalares são daqui a sete meses) e a necessidade de preservar o seu ego gigante.

Ou seja, para os EUA o ideal é que o conflito acabe o mais rapidamente, se possível de modo a que Trump possa salvar a face. Já Israel é menos sensível ao tempo e mais a resultados militares, de destruição da capacidade bélica e nuclear do seu inimigo. Em contrapartida, a Arábia Saudita consegue desviar até cinco milhões de barris por dia dos sete milhões que exporta pelo Mar Vermelho. Assim, parece interessada em algum prolongamento do conflito, porque lhe está a permitir um significativo aumento das receitas (em termos anualizados, um preço do Brent de 110 dólares por barril permitiria um ganho adicional de 5% do PIB), e também devido à inimizade com o vizinho.

O Irão descobriu finalmente o poder devastador da arma que sempre esteve ao seu alcance – fechar o estreito de Ormuz – mas que nunca se tinha atrevido a usar. Esta arma tem mesmo três enormes vantagens sobre o armamento nuclear: está pronta a usar; é de utilização muito mais aceitável para a comunidade internacional; provoca estragos muito maiores e com um âmbito geográfico muitíssimo mais amplo, praticamente toda a economia mundial.

Ainda que em termos militares convencionais, pareça que os EUA e Israel estão a ganhar, na verdade, o regime iraniano está a lutar pela sobrevivência e, por isso, tem maior capacidade de suportar os custos da guerra. Ironicamente, até tem sido autorizado pelos inimigos a exportar petróleo a preços muito mais altos do que anteriormente, ajudando a financiar as perdas. Vários analistas admitem que o Irão possa mesmo prolongar o fecho de Ormuz após o cessar das hostilidades.

Em resumo, parece que esta guerra durará poucos meses, porque a pressão eleitoral nos EUA acabará por ditar um cessar-fogo, mesmo implicando concessões importantes.

Já o impacto abrange um conjunto alargado de bens: petróleo, gás natural, fertilizantes e outros produtos. Para além de ramificações políticas sobre a ordem internacional.

Em relação aos combustíveis, existem reservas significativas para evitar rupturas físicas de abastecimento e a subida dos preços reduz a quantidade procurada, permitindo reequilibrar o mercado, por mais desagradável que isso seja para os consumidores (não sentem que o trânsito está mais fluido?).

Os fertilizantes são uma área mais complexa, porque estamos no período sazonal da sua utilização, e a sua escassez pode ter consequências muito negativas sobre o preço dos bens agrícolas.

Se a subida dos preços da energia for revertida até ao Verão, é improvável que haja consequências económicas significativas. Muitos aumentos de preços serão revertidos, o impacto sobre a inflação deve ser limitado e a alteração das expectativas de inflação de longo prazo deve ser perto de nula. Relembremos que a pandemia e as suas sequelas, que levaram a inflação a rondar os 10% praticamente não afectaram as expectativas de inflação. Se assim for, os bancos centrais quase não terão de actuar.

Talvez o maior risco seja a escolha da próxima “aventura” de Trump, como Simon Johnson alertou: poderá ser a Gronelândia? A China tem as terras raras, o Irão tem o estreito de Ormuz, mas a Europa não tem uma arma equivalente. Pelo contrário, a Ucrânia precisa do equipamento militar e da “intelligence” dos EUA, o que coloca o continente europeu numa posição muito mais vulnerável.