Em Portugal, o debate político “normal” é frequentemente marcado por provocações ideológicas, interpretações deturpadas de factos ou afirmações, imputação de intenções negativas e argumentação demagógica para sobrevalorizar as “nossas” qualidades e agravar as deficiências da outra parte. Digo “normal”, no sentido em que reflecte um quadro de rivalidade e competição eleitoral democrática, e de debate entre Governo e oposição. Mas, mesmo assim, já é, por vezes, desagradável.

Cito, em abono desta opinião, a atitude de Rui Rio, então presidente do PSD, quando reduziu a frequência dos debates com o Governo na Assembleia para evitar os “debates-espectáculo” que se tinham transformado em “momentos de show político e produção de soundbites” em vez de verdadeiro escrutínio.

Devo confessar que me surpreende a forma fácil e extremamente rápida como o Chega, desde que se instalou na Assembleia da República, substituiu os instrumentos de retórica que vinham sendo usados no debate político. Fê-lo pelo recurso aberto à manipulação da informação, pela utilização de argumentos falsos assentes em percepções empíricas e não na realidade objectivamente comprovável e na razão, pela calúnia e pela mentira.

O Chega assumiu um discurso populista, concebido para promover noções e ideias simples, induzidas por interpretações rápidas e mal informadas (ou desinformadas) sobre realidades complexas. Utiliza esse discurso com uma atitude de ódio, de fomento da negação da igual dignidade de todas as pessoas, valorizando diferenças nacionais, étnicas, culturais e religiosas para dividir a sociedade entre “uns” e “outros” e criar uma noção artificial de “portugueses de bem” que teriam sido vítimas da “bandidagem” e dos membros da classe política, os quais “terão de nos devolver tudo o que nos roubaram ao longo dos últimos 50 anos”.

É uma linguagem típica dos movimentos populistas. Recorre a termos e frases comuns nos meios ditos mais populares, para tentar criar a ideia de que entende e partilha das preocupações das camadas que se consideram mais desfavorecidas. É o típico slogan de Perón, “nós, os descamisados, contra a oligarquia, que nos odeia porque estamos com o povo”. Essa linguagem, feita de frases simples e bem construídas, muitas vezes repetidas para ficarem no ouvido, é usada de modo teatral, encenado para dar mais ênfase às intervenções. É o que fazem os deputados do Chega na Assembleia da República, de forma desordenada e ruidosa, recorrendo a “apartes” histriónicos para perturbar as intervenções dos restantes grupos parlamentares.

Na realidade, o Chega não tem qualquer mensagem para além de simples propaganda. Não existe naquele palavreado qualquer indício, ou sequer sombra, de um programa coerente que possa ser a base de uma acção de governo. A intenção não é criar ou construir, nem sequer participar na criação ou construção de soluções viáveis. A ideologia do Chega resume-se à ideia de “direita”, sem dizer o que é a direita, excepto por oposição à esquerda. É a revisão da Constituição sem dizer como. É limitar a imigração porque os imigrantes são diferentes. É segregar os ciganos, porque são ciganos. É acusar o PS e o PSD de terem roubado o país durante 50 anos, sem dizer em que consiste o “roubo”. E é justificar o uso da violência verbal como arma política.

O recurso a este tipo de linguagem apenas leva a que cada vez mais pessoas válidas se afastem da política. Será esse o objectivo? Salazar aplaudiria, decerto.