O Estreito de Ormuz é decisivo para o mundo. Quem diria que uma das artérias mais sensíveis da economia global — um corredor marítimo estreito, mas absolutamente vital, que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico — afetaria desta forma a economia global. O estreito tem apenas 34 quilómetros de largura no seu ponto mais estreito, uma peculiaridade geográfica que facilita o controle por parte do Irão e, é por aqui que passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo, além de volumes significativos de gás natural liquefeito. A norte está o Irão; a sul, Omã e os Emirados Árabes Unidos.
A importância do Estreito de Ormuz mede-se em números e dependências. Segundo a Energy Information Administration, em 2025 circularam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia — o equivalente a aproximadamente 20% do comércio global e de gás natural liquefeito (GNL). Não se trata apenas de petróleo iraniano: países como Iraque, Kuwait, Catar e Arábia Saudita dependem desta rota para exportar energia.
Qualquer perturbação repercute-se de imediato nos mercados globais. Como noticiou a Reuters, ataques recentes a petroleiros fizeram disparar o preço do Brent para mais de 80 dólares por barril — um sinal claro da fragilidade do equilíbrio energético mundial. O estreito abre, o preço do petróleo cai. O estreito fecha e o preço do petróleo sobe. Parece um jogo financeiro metaforizado numa corda que já está a ser esticada há demasiadas semanas. Os Estados Unidos puxam para um lado, o Irão puxa para o outro e o resto do mundo balança entre uma ponta e outra com a respiração suspensa à espera de que o conflito se resolva sob pena de rebentar com a economia global.
Como o Irão pode fechar o estreito
O Irão não precisa de “fechar” fisicamente o estreito para o tornar inoperável — basta torná-lo perigoso. Especialistas militares, citados pela Reuters, apontam três métodos principais: colocação de minas navais por lanchas rápidas ou submarinos; ataques com mísseis a navios comerciais e assédio contínuo por forças da Guarda Revolucionária Iraniana.
Só para recordar, a decisão de interromper o estreito surgiu após os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão e à morte do aiatola Ali Khamenei. O Irão diz que encerrou a passagem na noite de 2 de março. Porém, a sua decisão não é vinculativa porque o país não controla a totalidade da rota. Uma parte das águas territoriais pertence a Omã.
Porque voltou a “fechar” hoje
Em comunicado citado pela Lusa, os militares explicaram que, apesar de terem concordado “de boa-fé” e “seguindo acordos prévios alcançados em negociações” em “permitir a passagem controlada de um número limitado de petroleiros e navios mercantes pelo estreito”, os norte-americanos “continuam a praticar atos de pirataria e banditismo sob o pretexto de um alegado bloqueio”.
Assim, o exército iraniano anunciou que o controlo do estreito está a regressar “ao seu estado anterior”. A declaração militar, divulgada pela televisão iraniana afirmou que o estreito permanecerá “sob estrito controle” a não ser que os Estados Unidos restabeleçam “total liberdade de navegação para embarcações que viajam do Irão para os seus destinos e dos seus destinos para o Irão”, referindo-se ao bloqueio americano aos portos iranianos.
O Estreito de Ormuz afirmou-se como um dos principais instrumentos de influência de Teerão no conflito. Em resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, o Irão bloqueou a passagem, interrompendo o fluxo de petróleo e gás e provocando uma subida acentuada dos preços globais dos combustíveis.
Quais as alternativas
Os países do Golfo têm tentado reduzir a dependência do Estreito de Ormuz, mas com limitações estruturais e custos logísticos relevantes. Segundo a Lloyd’s List, a Arábia Saudita dispõe de um oleoduto Este-Oeste que liga os campos petrolíferos ao Mar Vermelho, com capacidade para cerca de cinco milhões de barris por dia — É a alternativa mais robusta da região, mas ainda insuficiente frente ao volume total exportado pelo Golfo, enquanto os Emirados Árabes Unidos construíram uma ligação até ao porto de Fujairah, já fora do Golfo, capaz de escoar até 1,5 milhões de barris diários. Esta opção reduz exposição direta ao risco geopolítico.
Segundo a revista Veja há ainda a opção do oleoduto Goreh-Jask inaugurado em 2021 para permitir exportações fora de Ormuz. Tem uma capacidade estimada de 300 a 350 mil barris por dia. Porém, como refere a mesma fonte tem uma capacidade modesta.
“Mesmo somadas, as rotas alternativas disponíveis não compensariam integralmente um bloqueio total do estreito, segundo a EIA. A infraestrutura terrestre cobre apenas uma fração dos mais de 20 milhões de barris por dia que passam no estreito. Além disso, nem todos os países do Golfo possuem oleodutos alternativos, e parte do petróleo transportado por Ormuz segue para refinarias específicas, com cadeias logísticas desenhadas para aquela rota”, diz ainda a Veja.
No plano marítimo, as alternativas existem mas implicam sempre desvios e mais tempo de viagem. Parte do crude pode seguir a partir do Mar Vermelho através do Canal de Suez em direcção à Europa, o que em condições normais representa um acréscimo relativamente limitado, entre dois a cinco dias, dependendo da origem exacta. Quando essa via não está disponível ou se encontra congestionada, os navios podem ser forçados a contornar África pelo Cabo da Boa Esperança, uma solução muito mais longa que acrescenta entre dez a quinze dias nas ligações ao mercado europeu e pode atingir cerca de vinte dias adicionais nas rotas para a Ásia.
Existem ainda soluções intermédias, como o recurso a portos fora do Golfo, nomeadamente Fujairah, que permitem carregar petróleo transportado por oleoduto e evitar o estreito, mas mesmo nesses casos há um acréscimo de um a três dias e limitações de capacidade. Em cenários de elevada tensão, somam-se atrasos adicionais associados à espera por escoltas militares ou à reorganização das cadeias logísticas, podendo prolongar as viagens em mais três a sete dias.
No essencial, nenhuma destas alternativas substitui plenamente a eficiência do Estreito de Ormuz. O impacto não se traduz apenas em menos petróleo disponível, mas também em viagens mais longas, custos de transporte mais elevados e prémios de seguro mais caros, factores que acabam por repercutir-se no preço final da energia e, em última instância, na economia global.