Desde já, e antes que alguém se assuste com a palavra “mercado” aplicada aos relacionamentos amorosos e à conjugalidade, refira-se que o amor sempre foi, em parte, um processo de escolha mútua num ambiente com oferta limitada, preferências assimétricas e custos de oportunidade. A palavra “mercado” não desumaniza a dinâmica em si, nem inventa a competição, a selectividade ou a escassez, ela apenas descreve o que já existe. Esse “mercado do amor” existe porque o fenómeno envolve oferta e procura, preferências diferenciadas, escassez (de tempo, atenção, fertilidade, compatibilidades várias…), custos de oportunidade (outras pessoas possíveis, tempo e energia…) e valor percebido (atractividade, compatibilidade emocional, física e social, prestígio, etc).

Um primeiro ponto que deve ficar claro é que o problema actual não é a escassez de opções, mas o excesso de escolha, por muito contra-intuitivo que isto possa parecer da perspectiva dos queixosos. Quando temos muitas alternativas disponíveis, aumenta a dificuldade em decidir e cresce a tendência para adiar compromissos. Por sua vez, quando a percepção de alternativas é elevada, tende a diminuir a urgência de decisão.

A vida amorosa passa a ser vista como um campo aberto de possibilidades sucessivas, o que pode contribuir para o adiamento de compromissos duradouros. Encontramos aqui uma das causas mais básicas que contribui para o desajuste no mercado do amor. Enquanto os nossos antepassados formavam famílias por proximidade social e existia alguma filtragem por meio da comunidade, hoje essa escolha é gerida individualmente e com pouca informação. Cada um navega sozinho num mercado global e impessoal, comportando-se como uma criança solta numa loja de chocolates, fascinada pela variedade, mas incapaz de tomar uma decisão responsável.

Esta abundância ilusória alimenta a indecisão crónica, alimentada também por uma fraca consciência da finitude da vida. Vive-se como se o tempo fosse infinito, como se a juventude, a fertilidade e as oportunidades românticas fossem recursos ilimitados. Acresce ainda uma frequente sobrevalorização própria e desvalorização dos outros com aplicação de critérios altamente excludentes. As redes sociais desempenham aqui um papel relevante, porque amplificam percepções inflacionadas de valor e distorcem a percepção do que é alcançável.

A relevância deste fenómeno torna-se evidente em vários contextos, incluindo casos como o aumento do celibato e a retração das relações românticas em países como o Japão e a Coreia do Sul. Este padrão tem sido associado a vários factores, como o excesso de trabalho, a exaustão daí decorrente e a mudança nas expectativas em relação às relações amorosas, num contexto em que o aumento das qualificações e da autonomia económica das mulheres também tem contribuído para reconfigurar os critérios de escolha de parceiros, dando origem a dinâmicas frequentemente descritas como hipergamia educacional.

A pressão do trabalho é uma causa decisiva que não pode ser ignorada, na medida em que produz um esgotamento cíclico e funciona, sobretudo no caso das mulheres, como alienação que consome tempo e tende a secundarizar a esfera familiar.

Na Europa, o fenómeno mantém-se em crescendo, ainda que menos dramático e mais gradual. O número de adultos sem parceiro romântico tem aumentado, especialmente entre os jovens, mas há mais coabitação sem casamento e mais nascimentos fora do casamento do que aquilo que se verifica no Japão e na Coreia do Sul. Em Novembro de 2025, a revista The Economist dedicou uma edição ao tema, descrevendo uma geração cada vez mais “solteira” que altera profundamente a estrutura da sociedade, redefinindo a demografia, os serviços públicos, os ritmos de trabalho e de socialização, as opções de consumo, as necessidades de habitação e por aí adiante. Não esqueçamos também as repercussões que esta vida mais solitária tem no bem-estar individual à medida que estas pessoas envelhecem.

À medida que ganha terreno esse modelo unipessoal de vida autónoma, flexível e cosmopolita, com promessas de libertação e progresso individual, observa-se o aumento do consumo de ansiolíticos e a procura de relações mediadas por inteligência artificial, tanto para apoio emocional como para intimidade simulada. Num registo mais leve, não deixa de ser revelador que sociedades obcecadas com a libertação individual sejam um terreno fértil para a oferta de relações “arranjadas” em formato televisivo.

A frustração relacional existe de ambas as partes. Um recente relatório do Institute for Family Studies, relativo à experiência de jovens nos EUA revela que a inactividade no namoro é elevada em ambos os sexos: 74% das mulheres e 64% dos homens tiveram poucos ou nenhum encontro no último ano. A principal barreira citada é a falta de dinheiro (mais sentida pelos homens), seguida de falta de confiança e más experiências passadas. Enquanto as mulheres valorizam fortemente a compatibilidade emocional e social, muitos homens sentem-se limitados por constrangimentos financeiros e menor confiança para abordar potenciais parceiras. Não esqueçamos que em aplicações e dinâmicas modernas de encontros, há evidência de forte concentração de atenção feminina em menos homens mais “desejáveis”, fazendo com que muitos homens se deparem com taxas de rejeição mais elevadas do que as mulheres.

O risco de recuo masculino, a par de uma maior selectividade feminina, alimenta um ciclo que agrava o desencontro entre ambos. Se pensarmos agora nas consequências colectivas de longo prazo, teremos de admitir que esta avalanche de decisões individuais e desencontros românticos tem uma força esmagadora face às risíveis propostas materiais de incentivo à natalidade que se discutem de forma incipiente no mundo ocidental.

O aumento da autonomia e educação das mulheres eleva as expectativas e a selectividade. As mulheres tornam-se mais exigentes exactamente quando o “mercado” de homens dá sinais de cansaço e de desinteresse perante um muro de exigências e de arbitrariedades femininas. Naturalmente, esta tendência de afunilamento de oportunidades vai comprometer brutalmente a janela de fertilidade: a oferta encolhe e a fertilidade diminui.

Perante todas estas causas de desencontro e incompatibilidade, é difícil definir por onde começar a corrigir o fenómeno. Talvez o primeiro passo passe por voltar a encarar o amor não como um supermercado infinito, mas como um bem escasso, que exige decisão, sacrifício, devoção, coragem e bastante humildade perante a sua natureza.