Os deputados únicos do BE, PAN e JPP alertaram hoje para os perigos do populismo e da intolerância à diferença, defendendo que a tarefa de Abril é hoje proteger a democracia de quem a quer dividir.

Na sessão solene comemorativa do 52.º aniversário do 25 de Abril de 1974, o deputado único do BE, Fabian Figueiredo, foi o primeiro a saudar os capitães de Abril e os deputados constituintes, num discurso em que foi várias vezes aplaudido pela bancada do PS.

Sem nunca referir o destinatário, o deputado do BE defendeu que “o pluralismo constrói-se na elevação do confronto de ideias, não na sua degradação propositada”, considerando que “a gritaria constante não é coragem política, é apenas a coreografia cobarde do vazio”.

“Este parlamento não pode ser o espelho das nossas piores pulsões”, apelou.

Fabian Figueiredo apontou como facto indiscutível que o último meio século de liberdade foi “o melhor período da História de Portugal, a época áurea da nossa história coletiva”.

“A nostalgia de um país onde supostamente ‘havia ordem e respeito’ é uma falsificação grosseira. A ordem da ditadura era a ordem do medo. E o medo não cura doentes, não paga salários, nem ensina ninguém a ler”, afirmou.

Admitindo que o país tem ainda muitos problemas, o deputado do BE sublinhou que nenhum deles é a liberdade.

“O que está a falhar não é a democracia. A democracia permite o erro e o acerto (… ) A liberdade não é o problema: é sempre a solução. Cabe-nos hoje defender a liberdade de quem a quer sequestrar para oprimir e dividir”, alertou.

Na mesma linha, a deputada única do PAN, Inês de Sousa Real, centrou-se no que falta cumprir das promessas de Abril, recordado os problemas na habitação, os baixos salários, a violência doméstica, mas alertando também para outro tipo de violência: a da palavra.

Ines Sousa Real, president of the PAN party, speeches at the ceremony commemorating the April 25th revolution, the Carnation Revolution, today in Parliament, in Lisbon, Portugal, April 25, 2026. RODRIGO ANTUNES/LUSA

“Os tempos de Abril foram tempos em que Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares se sentavam à mesma mesa para jantar, não apesar das diferenças, mas por causa delas. Hoje, demasiadas vezes, a política transforma-se num campo de batalha identitário. O populismo substitui o confronto de argumentos pelo choque de pertenças”, criticou.

A deputada única do PAN lamentou que, na política atual, já não se procure convencer, mas esmagar.

“Já não há adversários, há inimigos. E quando assim é, apontam-se palavras como se fossem armas. Isso é o contrário do espírito de Abril. Porque Abril é liberdade, com compaixão”, disse, apelando a que o próximo aniversário da Revolução seja celebrado “com uma sociedade em que a diferença não é uma ameaça, que o outro não é um inimigo”.

Na sua estreia em sessões solenes do 25 de Abril, o deputado único do JPP, Filipe Sousa alertou igualmente para os novos desafios que vão exigir “a mesma lucidez e coragem” de 1974.

epa12912755 Deputy of JPP party Filipe Sousa delivers a speech at the ceremony commemorating the April 25th Carnation Revolution at the Parliament in Lisbon, Portugal, 25 April 2026. The 25th April 1974 Carnation Revolution ended the authoritarian regime of Estado Novo (New State) that ruled the country between 1926 to 1974. EPA/RODRIGO ANTUNES

“Vivemos tempos em que a facilidade do ruído tenta substituir a profundidade do pensamento. Em que discursos de ódio, disfarçados de opinião, procuram dividir aqueles que Abril uniu. E não, não é indiferente, não é inofensivo”, sublinhou, também aplaudido por vários deputados do PS.

O deputado do JPP avisou que “o ódio corrói lentamente, mas de forma implacável, os excessos da convivência democrática e da identidade coletiva”.

“A democracia não se fortalece na gritaria, nem na exclusão, nem na simplificação perigosa dos problemas complexos. Fortalece-se no respeito, na escuta, na empatia e fortalece-se, acima de tudo, quando, mesmo na diferença, escolhemos a humanidade”, apelou.

Por isso, defendeu, o desafio atual é uma escolha: “Escolher se queremos alimentar divisões ou construir pontes”.