O recém-empossado Presidente do MIBEL, Pedro Amaral Jorge, destaca a forte incorporação de energias renováveis como o escudo ibérico contra a volatilidade dos combustíveis fósseis em entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios (Programa Conversa Capital).
Apesar da escalada de tensão internacional e da crise que afeta os combustíveis fósseis, os consumidores do mercado ibérico podem contar com uma forte estabilidade nos preços da eletricidade. A garantia foi dada pelo novo Presidente do Operador do Mercado Ibérico de Eletricidade (MIBEL). Segundo o responsável, a grande responsável por este cenário de resiliência é a massiva incorporação de energias renováveis no sistema de produção, com especial destaque para o atual forte contributo da componente hídrica.
Pedro Amaral Jorge enfatizou que o mercado ibérico usufrui de uma vantagem competitiva destacada face a outras geografias europeias. No entanto, dentro deste bloco, Portugal encontra-se ainda melhor posicionado do que o país vizinho. Espanha tem maior dependência de fatores externos imediatos, ao passo que Portugal beneficia de uma capacidade superior de armazenamento de energia hídrica através das suas grandes albufeiras de barragens, permitindo gerir as reservas com muito maior flexibilidade.
Segundo o Presidente do MIBEL esta robustez reflete-se na balança comercial e na captação de riqueza. Atualmente, a incorporação de renováveis na produção elétrica nacional atinge os 80%. Este ecossistema de energia limpa e barata está a funcionar como um íman para o investimento estrangeiro.
O presidente do MIBEL assume mesmo que este fluxo de capital direcionado para a transição energética poderá atingir um peso equivalente ao contributo do turismo para o Produto Interno Bruto (PIB) nacional, apresentando a vantagem de gerar um valor acrescentado muito superior para a economia.
Para acomodar e sustentar o disparo expectável do consumo industrial e tecnológico, o líder do operador defende duas frentes de investimento obrigatórias. Por um lado o aumento da capacidade de geração, expandindo os parques produtores de energia limpa. Por outro o reforço drástico no armazenamento, de forma a garantir estabilidade quando o sol não brilha ou o vento não sopra.
No topo das prioridades do novo mandato de Pedro Amaral Jorge no MIBEL está o aumento da previsibilidade de custos para os consumidores e empresas. O caminho passa pela dinamização dos contratos de aquisição de energia a longo prazo (conhecidos no setor pela sigla inglesa PPA), que mitigam os riscos do mercado diário e dão estabilidade de tesouraria a quem compra.
O líder do mercado ibérico olhou ainda para o atual xadrez geopolítico. Desvalorizando um eventual bloqueio marítimo no Estreito de Ormuz, o gestor alertou que o verdadeiro perigo reside na destruição deliberada de infraestruturas energéticas críticas em países exportadores fulcrais, como é o caso do Qatar.
Lucros Excessivos, Carvão e o Fantasma do “Apagão”
Questionado sobre a hipótese de os governos aplicarem impostos extraordinários e temporários sobre os lucros “excessivos” das empresas do setor energético, Pedro Amaral Jorge confessou não compreender como se calcula ou identifica um lucro excessivo quando, em várias semanas do ano, os produtores enfrentam blocos de quatro ou cinco horas diárias com o preço da eletricidade fixado a zero no mercado grossista, sem direito a qualquer tipo de compensação financeira.
No que toca à transição e cumprimento das metas ecológicas (estipuladas em 60% de energia elétrica renovável no consumo final até 2050), Amaral Jorge considera que o plano está no bom caminho, embora avise que o ritmo terá de ser acelerado e que o tecido empresarial precisa de verbas de apoio para conseguir cumprir o calendário. O que está completamente fora de hipótese e é classificado pelo mesmo como “um absurdo” é qualquer cenário que envolva reativar as velhas centrais a carvão.
A fechar a entrevista, o presidente do MIBEL recordou o primeiro aniversário do mediático “apagão” elétrico. Revelou que, atualmente, o gás natural representa entre 14% e 15% da geração no mercado ibérico — mais do dobro da fasquia de 5% a 6% registada antes da falha geral.
Esta subida deveu-se a uma decisão estratégica e preventiva de Madrid para evitar novas situações de sobretensão no sistema elétrico espanhol. O perigo de novos episódios semelhantes ainda não desapareceu na totalidade, mas o presidente sublinhou que, na altura do incidente original, dadas as contingências da rede, foi tecnicamente impossível evitar o contágio e a consequente queda do sistema elétrico em Portugal.
Por fim, confrontado com os efeitos destruidores das tempestades de janeiro nas redes de distribuição e a pressão pública para enterrar os cabos elétricos em todo o país, Pedro Amaral Jorge rematou que tal obra comportaria um investimento colossal que se traduziria num “custo incomportável” diretamente refletido na fatura a pagar pelos cidadãos.