O Banco Carregosa reviu em baixa as perspetivas de crescimento para 2026, alertando para um cenário de “continuidade interrompida”, no seu Outlook Primavera para o próximo trimestre.

“O segundo trimestre de 2026 inicia-se num enquadramento substancialmente diferente daquele que dominava o início do ano. A ideia central de que 2026 poderia representar uma continuidade de 2025 — ainda que num ambiente de riscos elevados e exigentes — foi profundamente perturbada pela concretização do risco geopolítico no Médio Oriente, através do conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. Aquilo que até então era tratado como um risco de baixa probabilidade, mas com impacto potencial elevado, passou a condicionar ativamente o comportamento dos mercados, das expectativas económicas e das decisões de política monetária”, segundo o relatório do banco.

O conflito entre EUA, Israel e Irão fez disparar o preço do petróleo e obrigou os bancos centrais a adiar a flexibilização da política monetária.

O otimismo que marcou o início de 2026 deu lugar a um exercício de gestão da incerteza. De acordo com o relatório Outlook Primavera do Banco Carregosa , a materialização do risco geopolítico no Médio Oriente alterou profundamente o paradigma económico global para o segundo trimestre do ano. O choque energético, provocado pelo conflito envolvendo os EUA, Israel e o Irão, reintroduziu pressões inflacionistas e colocou a economia mundial perante o risco real de estagflação — uma combinação de baixo crescimento e inflação elevada.
Revisão em Baixa do Crescimento Global.

O impacto da instabilidade já se reflete nas projeções das principais instituições internacionais. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu em baixa o crescimento mundial para 2026, de 3,3% para 3,1%, enquanto a inflação global foi revista em alta para 4,4%.

Na Zona Euro, o cenário é ainda mais desafiador. O Banco Central Europeu (BCE) cortou a previsão de crescimento de 1,2% para 0,9%, estimando que a inflação se situe nos 2,6% em 2026, significativamente acima da meta de 2%. Segundo o relatório , a Europa enfrenta uma maior vulnerabilidade devido à sua dependência de combustíveis fósseis importados, o que tem pressionado as yields soberanas, particularmente na Alemanha.

A esperada descida das taxas de juro foi colocada em pausa. O Banco Carregosa sublinha que, ao contrário do choque de 2022, os bancos centrais partem agora de níveis de juro mais elevados, o que lhes confere alguma margem de manobra. Contudo, a mensagem atual é de “prudência extrema”.

“Os próximos movimentos deverão ser de subida, embora o ritmo dependa dos dados”, refere o documento. O BCE e o Banco de Inglaterra poderão mesmo subir taxas nas próximas reuniões, enquanto a Reserva Federal norte-americana (Fed) deverá aguardar pelo segundo semestre para tomar decisões, perante uma economia dos EUA que demonstra maior resiliência no consumo privado.

O impacto nos mercados financeiros foi imediato e assimétrico. No primeiro trimestre, o setor da Energia foi o único a registar uma performance positiva, impulsionado por uma subida de 59% no preço do barril de Brent até ao final de março. Em contraste, os principais índices acionistas sofreram correções acentuadas: o DAX 40 caiu mais de 10% só no mês de março, refletindo a exposição europeia à crise energética.

Até o ouro, tradicional refúgio dos investidores, não escapou à volatilidade. Após atingir máximos históricos acima dos 5.100 dólares por onça em janeiro, o metal precioso corrigiu perante a valorização do dólar e a perspetiva de juros elevados por mais tempo.

Perante este quadro, o Banco Carregosa recomenda uma postura tática mais defensiva.

Mário Carvalho Fernandes, Chief Investment Officer da instituição, destaca que “em cenários de estagflação, mesmo que moderada, poucas classes de ativos oferecem verdadeira proteção, sendo a liquidez, historicamente, o principal refúgio”.

A instituição sugere o reforço da componente de liquidez nas carteiras e uma seleção rigorosa de ativos, privilegiando empresas com balanços fortes e capacidade de geração de cash-flow. No mercado de obrigações, a preferência recai sobre o investment grade e durações intermédias, mantendo uma disciplina rigorosa no segmento de high yield.

“O desafio para o investidor continua a ser o de construir carteiras resilientes, capazes de atravessar cenários adversos sem comprometer os objetivos de médio e longo prazo”, conclui o relatório .