Um arquivo fotográfico jamaicano que atravessou continentes, rupturas e durante décadas afastado do olhar público, é agora apresentado no Palácio da Cidadela, em Cascais, na exposição Abeng — Signal of Resistance: Tony Russell’s Archive.
A mostra reúne 73 fotografias de Tony Russell, fotógrafo nascido em Kingston em 1938, e propõe um percurso visual e biográfico que atravessa a Jamaica pós-independência, a Guerra Fria, a afirmação da cultura caribenha e o exílio do autor na Venezuela.
Mais do que uma retrospectiva, a exposição revela parte de um arquivo considerado singular, acompanhando Russell não apenas enquanto observador, mas também como participante em acontecimentos históricos que marcaram a segunda metade do século XX.
O título da exposição remete para o “Abeng”, instrumento tradicional jamaicano usado para comunicar à distância, frequentemente associado à resistência. Aqui, funciona como metáfora para a própria trajectória do fotógrafo e do seu arquivo, que sobreviveram a deslocações, perdas e décadas de invisibilidade.
Entre as imagens expostas encontram-se registos da vida quotidiana na Jamaica após a independência em 1962, captando mercados, comunidades e celebrações de um país em construção. A exposição inclui também fotografias de figuras marcantes como Bob Marley, Jimmy Cliff, Big Youth e Mick Jagger, bem como de personalidades políticas como Fidel Castro e a rainha Isabel II, refletindo a projeção internacional da jovem nação jamaicana.
Um dos momentos centrais do percurso de Russell foi a sua ligação à Magnum Photos. Parte do seu trabalho integrou a biblioteca da agência, antes de o próprio fotógrafo retirar as imagens num contexto de tensões políticas durante a Guerra Fria. Esse gesto marcou o início de um afastamento dos circuitos internacionais e contribuiu para o desaparecimento público do seu arquivo durante décadas.
Após deixar a Jamaica, Russell viveu na Venezuela, onde o seu trabalho ganhou uma dimensão mais intimista. Na região andina de Trujillo, desenvolveu um olhar centrado nas comunidades locais, na paisagem e nas práticas culturais, incluindo a devoção à Virgen de la Paz.
As 73 fotografias apresentadas em Cascais representam apenas uma parte de um arquivo mais vasto, ainda em processo de investigação e preservação. Ao longo de mais de cinquenta anos, esse espólio acompanhou o fotógrafo entre vários países, resistindo a mudanças, perdas e longos períodos fora de circulação.
A exposição resulta do trabalho do Colectivo Castanea, formado por Tiago Serpa, Tiago Brandão e Rogério Queiroz, que tem vindo a dedicar-se à recuperação, estudo e divulgação do arquivo de Tony Russell. O projecto assume-se também como um gesto de resistência cultural, devolvendo visibilidade a um conjunto de imagens que poderia ter permanecido desconhecido.
A iniciativa conta com o apoio da Fundação D. Luís I, entidade responsável pela gestão de equipamentos culturais em Cascais e pela promoção de programação artística no concelho.