A gramática política angolana, conforme descrita pelo analista Sérgio Dundão, reduz-se a um conjunto de classificações políticas simples sobre as atitudes e os comportamentos dos sujeitos face ao poder político. Esta gramática procura inviabilizar a mera condição de cidadão e impossibilitar qualquer tentativa emancipatória da sociedade civil, estabelecendo dois tipos de sociedade civil: uma pacífica, quando neutra ou ausente de juízo crítico, e outra contestatária, quando ousa tecer críticas ao estado da governação do país.

À luz dessa gramática, os sujeitos angolanos são classificados de forma limitada: se um angolano decide elogiar o governo, é rotulado de bajulador; se opta por criticar, passa a ser um sujeito da oposição. Durante a guerra civil, tal crítico era automaticamente associado à UNITA. Se é apenas um crítico, mas não participa ativamente em protestos, é classificado como ‘revú’; quando assume contestação frontal, participando em manifestações, torna-se ‘activista’.

Dentro do activismo angolano, Sérgio Dundão identifica duas modalidades: os activistas-milicianos, que actuam sob agenda de partidos e são activos nas redes sociais, e os activistas-militantes, inscritos formalmente nos partidos. Esta reconfiguração reflecte cisões e tensões internas, onde a luta pelo poder através do derrube do regime do MPLA é o único ponto de concordância.

O autor conclui que esta gramática é produto histórico de um Estado marcado pela luta de poder, onde as relações humanas foram forjadas na desconfiança, criando um ambiente social panótico. Silêncios e omissões são vistos como estratégia de sobrevivência, não como decisão de cidadão. Resta questionar como construir uma sociedade civil coesa sem vasos comunicantes fiáveis e terra sólida confiável.