O presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, Bubacar Turé, afirmou que a Guiné-Bissau vive “uma acalmia” após o golpe de Estado de 26 de novembro de 2025, mas critica a falta de diálogo por parte dos militares no poder. Em entrevista à Lusa, o ativista descreveu que, após a tomada do poder, “havia muita tensão, alguns atos repressivos”, mas “nos últimos tempos, tem-se assistido a uma acalmia”.

Entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, a sede da Liga, a Casa dos Direitos, foi invadida por forças policiais e eventos suspensos. Nos meses seguintes, porém, a Liga continuou a desenvolver suas ações sem restrições, com colaboração das autoridades. Bubacar Turé destacou “também alguma abertura de alguns setores do poder”, como o primeiro-ministro, Ilídio Vieira Té, e o Ministério do Interior.

A aparente acalmia também se reflete no cotidiano dos guineenses, com cidadãos comuns e organizações da sociedade civil realizando suas atividades regularmente. Contudo, o ativista aponta que o principal problema é o Estado não cumprir “cabalmente suas obrigações” no fornecimento de serviços sociais básicos, como saúde, educação, energia elétrica e água potável. A crise se agravou com a suspensão dos apoios de parceiros internacionais após o golpe.

Para Bubacar Turé, o país precisa de um “regresso urgente à ordem constitucional”, mas “não pode ser a todo o custo, tem que haver os pressupostos prévios”. Ele afirma que “não estamos a ver diálogo nem atos preparatórios para esse efeito”, e que há um “silêncio preocupante” por parte das autoridades. A Liga defende um diálogo que reúna todos os atores nacionais, incluindo políticos, religiosos e sociedade civil, além da implementação das deliberações da CEDEAO.

Sobre as eleições gerais anunciadas para 06 de dezembro, Bubacar Turé afirma que não estão reunidos “os pressupostos para eleições livres e transparentes”, lembrando que sedes de partidos estão encerradas e liberdades fundamentais suspensas. Ele também cita que a Comissão Nacional de Eleições foi “desmantelada” durante o golpe e não houve recenseamento eleitoral. A Liga ainda destaca a situação do presidente do PAIGC, Domingos Simões Pereira, em prisão domiciliária sem processo judicial formal, e o homicídio do ativista Vigário Luís Balanta, sem investigação conclusiva.

Por fim, o ativista critica as alterações legislativas realizadas nos últimos seis meses, incluindo a revisão constitucional, leis eleitorais e a criação de uma comissão de verificação de publicações em redes sociais. Ele argumenta que “não se pode aprovar legislação sem consultar os cidadãos” e que “nenhuma circunstância” justifica medidas de um órgão sem legitimidade democrática.