A discussão sobre a Inteligência Artificial em áreas como a contabilidade, a auditoria e a gestão já ultrapassou a fase da curiosidade tecnológica. A pergunta deixou de ser “se” a IA vai transformar estas atividades. A verdadeira questão passou a ser é outra: estará Portugal a preparar, com a rapidez necessária, profissionais capazes de trabalhar com esta tecnologia em vez de serem ultrapassados por ela?

Durante décadas, muitas tarefas destas áreas assentaram em processos repetitivos: lançamento de documentos, reconciliações, conferência de dados, preparação de mapas, análise preliminar de desvios ou verificação de conformidade. A IA veio acelerar o processo de automação destas rotinas, processo esse que já vinha em curso. Aquilo que antes consumia horas de trabalho pode agora ser feito em minutos, com maior capacidade de cruzamento de informação e deteção de padrões libertando os profissionais para atividades que tenham maior valor acrescentado. Isto não significa o fim do contabilista, do auditor ou do gestor. Significa, sim, o fim de uma certa forma de exercer estas atividades.

O contabilista do futuro terá de ser menos um executor de tarefas administrativas e mais um intérprete da informação económica e financeira. A sua função será ajudar empresas a tomar melhores decisões, antecipar riscos, avaliar cenários e traduzir dados em estratégia. O mesmo acontecerá com a auditoria. A análise de grandes volumes de informação permitirá identificar anomalias, testar populações inteiras de dados e reforçar a qualidade do trabalho. Mas a tecnologia não substitui o julgamento profissional, a ética, o ceticismo, a criatividade e a compreensão do negócio ou a capacidade de questionar resultados aparentemente perfeitos.

É aqui que surge o maior desafio para Portugal. Se a IA for vista apenas como uma ameaça ou como uma moda passageira, o país arrisca-se a ficar para trás. Não apenas tecnologicamente, mas também em competitividade, produtividade e qualidade dos serviços profissionais. As empresas que souberem integrar estas ferramentas ganharão velocidade e capacidade analítica. As que não o fizerem continuarão presas a modelos de trabalho demasiado manuais, com profissionais sobrecarregados e pouco tempo para pensar estrategicamente e deste modo com menor capacidade de atração e retenção de talento.

Por isso, a requalificação deve ser tratada como uma prioridade. Às Instituições de Ensino Superior não basta comprar software ou introduzir unidades curriculares com a expressão “IA” na sua denominação. É necessário atualizar profundamente o ensino superior, a formação executiva e a aprendizagem ao longo da vida. É necessário reforçar competências em áreas como a análise de dados, os sistemas de informação, a ética da IA, o controlo interno em ambientes digitais, a gestão de risco ou o pensamento crítico. Não para transformar todos os profissionais em peritos em tecnologias, mas para garantir que sabem dialogar com ela, interpretar os seus resultados e reconhecer os seus limites.

Outro aspeto importante passa por reconhecer que a velocidade da mudança exige pontes mais fortes entre academia e mercado. Os estudantes precisam de contacto com ferramentas e problemas reais. Os profissionais no ativo precisam de formação prática, flexível e orientada para problemas concretos. E as organizações precisam de lideranças capazes de perceber que a transformação digital não é apenas uma questão informática, mas sim uma mudança cultural e de paradigma.

A Inteligência Artificial pode libertar tempo, reduzir erros e elevar o valor das profissões. Mas isso só acontecerá se houver visão. O risco não está na máquina executar uma atividade melhor do que nós. O risco está em continuarmos a formar pessoas para tarefas que a máquina já faz, esquecendo que o verdadeiro valor humano está em aspetos como a interpretação, a responsabilidade e a tomada de decisão. Ainda vai a tempo. Todavia, não pode perder muito mais tempo.