A estratégia geoeconómica americana, tal como está definida na National Security Strategy e na National Defense Strategy de 2025 e 2026, tem efeitos que vão muito além do ruído comunicacional da administração Trump. Os BRICS são um dos seus teatros mais reveladores.
Em Joanesburgo, em 2023, a expansão do grupo foi apresentada como o início de uma arquitectura financeira alternativa, com a desdolarização como horizonte e a promessa de um bloco capaz de desafiar a ordem ocidental. Dois anos depois, essa narrativa perdeu tracção. Não por acaso.
Os indicadores são claros. O dólar mantém cerca de 58% das reservas mundiais. O yuan continua abaixo de 3%. O projecto mBridge, pensado para contornar o SWIFT com pagamentos em moeda digital, perdeu impulso após a retirada do Banco de Pagamentos Internacionais. O Novo Banco de Desenvolvimento, embora relevante, não tem escala para rivalizar com as grandes instituições multilaterais. Fora da órbita russa, a liquidação comercial em yuan não ganhou a dimensão que os entusiastas da desdolarização antecipavam. A arquitectura existe, mas não ganhou corpo.
O ecossistema BRICS foi atingido quase em bloco. O Irão foi militarmente neutralizado. A Venezuela foi removida de uma posição útil no tabuleiro energético e financeiro. A África do Sul enfrenta fragilidade interna. O Brasil é pressionado e cortejado em simultâneo. A Índia nunca aceitou uma disciplina estratégica comum. A Arábia Saudita, chamada a ser peça-chave na expansão, preferiu mediar entre Washington e Teerão. O bloco ficou com membros hesitantes, ausentes ou constrangidos.
No caso russo, porém, importa distinguir causa e efeito. Não foi uma política específica de Washington que retirou a Rússia do centro de gravidade dos BRICS. Foi a própria decisão de invadir a Ucrânia que mergulhou Moscovo num atoleiro económico, financeiro, militar e social. Trump pode mudar o tom, procurar uma relação mais funcional com o Kremlin e até reduzir a pressão directa sobre Kiev. Mas isso não altera o essencial: a Rússia continua limitada pela guerra que escolheu. É uma perda de margem estratégica, não uma conquista americana.
É aqui que a leitura geoeconómica se torna mais clara. Para esta administração, a coerção é um instrumento de projecção de força, tratado com a mesma naturalidade que uma tarifa. O instrumento militar, as sanções, o controlo tecnológico e a pressão diplomática funcionam em conjunto para impedir a formação de um polo alternativo com massa crítica suficiente para desafiar o sistema financeiro e energético dominado pelos Estados Unidos. Os BRICS eram o principal candidato a esse polo. Foram tratados como tal.
A China é o caso mais revelador. Os ataques ao Irão e à Venezuela comprometeram investimentos e cadeias de abastecimento que Pequim considerava consolidados. A China recebeu Trump em contenção de danos, surpreendida pela ousadia americana em destruir posições que achava protegidas pela sua própria dimensão económica. É a falha mais estrutural: o seu presumível líder entrou na fase decisiva em modo reactivo.
Os BRICS não estão desarticulados por irrelevância. Foram-no por pressões externas e por fragilidades internas. A China e a Índia continuam a ser potências de primeira grandeza. As instituições existem. Mas o projecto político de alternativa sistémica perdeu membros, perdeu credibilidade e perdeu ritmo. O edifício que deveria mudar a ordem financeira global não ficou de pé.