O conflito no Médio Oriente tem consequências muito distintas na sociedade e irá agravar a desigualdade patrimonial entre classes sociais. Enquanto os investidores celebram as principais bolsas mundiais perto ou a bater máximos históricos, as famílias sem poupanças enfrentam uma realidade bem diferente.

Os receios em torno da guerra afastaram os investidores mais cautelosos, mas os de longo prazo estão a colher os rendimentos da sua paciência e estratégia. Para estes investidores, com mais literacia e horizonte de longo prazo, os seus ativos estão a valorizar, o que significa que conseguem amortecer parte do impacto inflacionista gerado pelo choque energético.

Já para quem não investe o cenário é completamente diferente. Em primeiro lugar, há o efeito da inflação. Ao poder atingir 4%, a subida de preços vai tornar a vida difícil a muitas famílias, uma vez que não vão poder manter o consumo em quantidade.

Para o Estado, a receita fiscal sobre o consumo pode mascarar este empobrecimento, porque as famílias gastam mais euros para comprar menos bens. Ou seja, o poder de compra e o rendimento disponível vão estar sob forte pressão nos próximos 12 meses.

Mas quem não investe tem ainda de enfrentar um segundo efeito mais negativo. A subida dos juros por parte do Banco Central Europeu (BCE), quase dada como certa em junho, de 2% para 2,25%. A acontecer, irá assinalar uma clara reversão da política monetária, sendo que já está a ter impacto nas famílias, empresas e Estado.

O crédito ficou mais caro, pois o mercado já está a antecipar pelo menos duas subidas de juros até final deste ano. Acrescem os preços da habitação – que se encontram em níveis extremamente altos, num mercado em que algumas medidas públicas têm contribuído para sustentar a procura –, o custo do crédito a subir e a perda de poder de compra das famílias.

Tudo isto vai criar uma pressão adicional para quem não tem poupanças ou investimentos. E é neste contexto que a redução da taxa de esforço se afigura um instrumento importante para a redução da procura do crédito à habitação, protegendo toda a economia do potencial de incumprimento com a subida dos juros, que, como temos presente pelas crises do imobiliário e das dívidas europeias, pode ser fatal para muitas famílias.

A inflação é um perigo que não tem fim à vista e este é um momento de cautela, até porque a negociação salarial para 2027 está ao virar da esquina, e o BCE pretende conter efeitos secundários, que, em 2022, obrigaram a uma subida drástica dos juros.