Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura em 2018, esteve no centro de uma polémica recente ao afirmar que recorre à Inteligência Artificial (IA) na sua escrita.

Os novos modelos de linguagem avançados são ferramentas que usa para desenvolver o processo criativo ou fazer pesquisas preliminares. Até tem uma alcunha para a IA, uma versão premium, chamada “kochana”, termo polaco para “minha querida”, como se fosse uma parceria criativa entre humano e máquina.

Escusado será dizer que muitos detratores da IA foram rápidos a criticar a autora polaca, forçando-a a emitir um comunicado em que nega o uso de inteligência artificial no seu livro. Todavia, o estrago já estava feito.

Temos assistido à rápida evolução da IA e de como tem sido adotada e integrada no trabalho sem qualquer cuidado ou reflexão crítica. O seu impacto em dois anos já é considerável, sem que a legislação acompanhe o fenómeno a bom ritmo.

O episódio com Olga Tokarczuk expõe a tensão no mundo da arte e na literatura, as primeiras vítimas fáceis deste novo paradigma tecnológico.

As linhas estão cada vez mais indefinidas. Onde começa e acaba a voz criativa do autor? Até que ponto é legítimo usar a IA como ferramenta na escrita? Deve ser liminarmente rejeitada? Poderá um dia a IA ser tão boa que a figura do escritor é descartada?

Curiosamente, na mesma altura em que se deu a polémica na Polónia, soube-se que um livro de não-ficção sobre Inteligência Artificial, “The Future of Truth”, tinha usado citações inventadas ou incorretas geradas pela própria IA alucinada.

Será que podemos confiar no bom senso humano para respeitar os limites e não deixar a voz criativa ser completamente cooptada por um sistema que não só não é neutro, como é alimentado por dados que infringem os direitos de autor?

Se queremos debater o futuro da literatura importa lembrar que o panorama já não era particularmente favorável muito antes de a Inteligência Artificial entrar em cena. É uma área de enorme precariedade financeira, com pouco respeito pela figura autoral e que, muitas vezes, não tem condições para viver da sua escrita. A IA veio exacerbar ainda mais as tensões numa área que tem estado sujeita a um tremendo desgaste.

Mas se hoje ainda podemos falar de uma rejeição absoluta do uso de inteligência artificial, daqui a um ano, o debate já terá evoluído para outros níveis mais assustadores. E não estamos preparados para esta tomada tecnológica de poder.