Portugal está a passar por um realinhamento político. E como em todos os realinhamentos, há muita gente que de repente olha em volta e se sente fora do sítio. É normal aparecer a conversa dos novos partidos. O realinhamento foi provocado pelo aparecimento de três na década passada. Quem foi empreendedor e criou para si espaços acabou por marcar o discurso.

O Chega e a IL transformaram a direita portuguesa, radicalizando-a nas guerras culturais e nos temas económicos, respetivamente. Galvanizaram o espaço e tornaram o discurso mais claro, mas também menos consensual. Puxaram com sucesso o PSD para os seus temas, tal como Portas e Freitas tinham feito antes. Mas também balcanizaram de tal forma que conseguiram, pela primeira vez, desperdiçar uma maioria de direita numa primeira volta de presidenciais. O Livre transformou o discurso do PS nas áreas urbanas e veio modernizar e moderar o pensamento da esquerda parlamentar. Não se distingue hoje um candidato do PS numa grande cidade de Rui Tavares.

Quem arriscou, mesmo sem ganhar, mudou o país. Há quem queira organizar este caos, sintetizando as novas tendências à esquerda ou à direita, fazendo novos partidos grandes que voltem a arrumar a casa nos dois lados. E eu posso garantir que há claramente fome de coisas novas, venham de que lado vierem.

Quem, à esquerda, pede um novo partido, quer separar a aliança entre a esquerda e o centro que existe no PS. Acha que a esquerda precisa de se apresentar sem adversativas. Quem à direita quer algo novo vai em sentido contrário. Quem se queixa de um governo sem ímpeto reformista, sem preocupação com a responsabilidade fiscal ou com a sustentabilidade das suas propostas, não percebe que no ano da graça de 2026 já não é de direita. Está em negação.

Um pouco por todo o mundo, a direita é agora uma força de desgoverno, focada em hipotecar o futuro pelo ganho eleitoralista rápido. Mais preocupada com casas de banho do que com números de PIB. Quem pede um novo partido à direita tem que perceber que está a pedir um novo partido de centro, que puxe aqueles com quem mais concorda do PS e do PSD para se sentarem a discutir seriamente o país na bancada central, enquanto deixam os restantes abanar bandeiras nas claques.

Resta saber se o apelo dos rótulos e das tribos não impede que apareça este partido de quem quer voltar a trabalhar com qualidade acima de trabalhar para popularidade. Se todos assumirmos claramente o que queremos fica mais fácil. Depois, falta decidir se vale a pena ir tentar convencer caciques acomodados e aplicar este desfibrilhador no PS ou no PSD, ou se é mesmo preciso fazer uma coisa completamente nova.

Cada vez acredito menos no primeiro caminho, mas a verdade é que se as fichas todas caírem do lado certo ainda pode acontecer. Como não sou de apostar, fiz-me à estrada. Há muita gente que escreve por aí que também devia fazer o mesmo.