As companhias aéreas brasileiras têm os olhos postos no domínio da TAP no Atlântico Sul. Estão a apostar cada vez mais nas rotas para a Europa e ameaçam a liderança da companhia aérea portuguesa.
Azul, LATAM e Gol devem fechar este ano com 1,7 milhões de lugares disponíveis entre o Brasil e a Europa (num sentido), depois de atingir 1,5 milhões em 2025.
Em 2005, o cenário era diferente: com 800 mil lugares disponíveis entre a Europa e o Brasil, as companhias canarinhas dominavam esta rota.
Mas o fim da VASP e da Varig determinou o seu declínio externo, com a TAP a aproveitar o vazio nos céus. As brasileiras viram os seus lugares recuarem mais de 240 mil para 600 mil entre 2005 e 2015.
Nesse período, a TAP ganhou mais 500 mil lugares, mas todas as outras companhias aéreas também reforçaram.
As brasileiras aprenderam a lição e depois de arrumarem a casa ganharam um milhão de lugares no espaço de 10 anos, demonstrando que estão aí para disputar o título de ‘dono do pedaço’.
“A LATAM, Azul e a Gol passaram por restruturações profundas e regressaram mais disciplinadas em capacidade e mais agressivas na exploração de rotas internacionais”, disse ao JE o especialista em aviação Pedro Castro.
“A abertura de ligações diretas e a futura entrada da Gol em Lisboa e Paris confirmam uma nova estratégia determinada em capturar cada vez mais valor para si e não servirem apenas de intermediários domésticos para as companhias europeias que aterram no Brasil”, segundo o líder da Sky Expert.
“É igualmente notória a tentativa de proporcionar as primeiras ligações diretas para a Europa com companhias brasileiras fora de São Paulo, como seja de Fortaleza, Recife e, em breve, do Rio de Janeiro também”, acrescentou.
A aposta da TAP no Brasil não nasceu no vazio, pois teve lugar à boleia da queda das companhias brasileiras no início do século.
Outro contributo foram as equipas de gestão que passaram pela companhia portuguesa. Fernando Pinto, presidente da TAP entre 2000-2018, liderou a Varig entre 1996 e 2000.
O seu sucessor, Antonoaldo Neves, veio da Azul, fundada pelo ex-acionista da TAP, David Neeleman.
A “LATAM, Azul e, em breve, a Gol” eram todas “irrelevantes neste eixo para a Europa em 2005”, mas “têm vindo a expandir-se massivamente para vários destinos europeus”, reforça Pedro Castro.
A TAP atingiu mesmo um novo recorde nas rotas para o Brasil em 2025, com mais de 2 milhões de passageiros transportados entre os dois países, liderando nas ligações entre a Europa e o país canarinho, com uma quota de 22%.
A companhia lusa conta atualmente com 100 voos semanais entre o Brasil e a Europa, voando para 14 cidades brasileiras.
Entre Portugal e o Brasil, domina em termos de capacidade total, com uma quota acima de 70%, seguida da Azul com 14% e da LATAM com 13%.
São Paulo é a cidade brasileira que gere mais voos para Portugal, com mais de 40%, seguida do Rio de Janeiro com 12%, Recife com 9%, Fortaleza com 7%, Belo Horizonte, Salvador e Brasília, todas com cerca de 6%, segundo os dados da Amadeus relativos a 2025.
A capacidade entre os dois países atingiu 3,5 milhões de lugares em 2025, um crescimento de 10% face ao ano anterior.
Obviamente, a forte presença da TAP no Brasil é uma das mais-valias da privatização da companhia portuguesa.
“A importância estratégica da TAP permanece igual para nós. A localização geográfica de Lisboa para juntar à nossa já forte posição na América Latina é ainda muito importante”, disse em maio o presidente-executivo da Air France-KLM Benjamin Smith destacando a “relação histórica” com a brasileira Gol.
Também a alemã Lufthansa não poupa elogios à operação brasileira da companhia portuguesa.
“Acredito que vamos estar numa posição ideal com a TAP na América do Sul. Somos o grupo europeu mais pequeno em relação à América do Sul. Com a TAP, vamos ser tão fortes como os outros”, disse em maio o presidente-executivo da companhia alemã Carsten Spohr.