Existe um fosso crescente entre o potencial tecnológico da Inteligência Artificial (IA) e a sua capacidade de gerar resultados financeiros tangíveis devido a barreiras estruturais e operacionais. Esta é uma das conclusões do estudo “300.000 Voices”, do Oliver Wyman Forum, que analisa cinco anos de evolução das atitudes e expectativas laborais em mais de 16 países.

Segundo Pilar de Arriba, partner de Telecomunicações, Media e Tecnologia e Líder da Plataforma de Performance Transformation da consultora Oliver Wyman, identificam-se quatro obstáculos principais que impedem que o aumento da eficiência se converta em margem de lucro. O primeiro são os modelos operacionais obsoletos, a indicar que a IA está a ser implementada como uma ferramenta sobreposta ao trabalho existente, em vez de servir para redesenhar os processos. O segundo é a adoção desigual, na qual a velocidade de uma organização é frequentemente definida pelos colaboradores mais lentos na adaptação à tecnologia, criando um desequilíbrio interno. A responsável acrescenta que a evolução da IA a um ritmo muito superior à capacidade das empresas de reformularem processos, governação e incentivos provoca uma espécie de “estrangulamento humano”. Por fim, aponta para a “falácia da produtividade”, indicando que “mil horas poupadas pela tecnologia não se tornam automaticamente mil horas monetizadas”.

Os dados do estudo indicam que apenas 35% dos líderes empresariais consideram que a sua organização possui uma visão estratégica clara e comunica eficazmente os progressos da IA. Pilar de Arriba explica que isso acontece porque muitas organizações ainda não responderam às perguntas mais difíceis: “quais os fluxos de trabalho que vão mudar primeiro, quais as decisões que serão aumentadas ou automatizadas, que riscos não serão assumidos, que competências precisam de ser desenvolvidas, como vão evoluir as funções e como se vai medir o progresso. É isso que gera essa perceção de falta de clareza estratégica”. Há colaboradores entusiasmados com a IA e outros preocupados com a substituição.

O estudo revela que muitas das maiores empresas estão a começar a medir a IA menos como uma despesa de TI e mais como um portefólio de transformação. Para Pilar de Arriba, a verdadeira disciplina é a conversão financeira: “as empresas precisam de distinguir entre tempo poupado e valor capturado. Este é o problema do ‘último quilómetro’: o valor é criado pela tecnologia, mas capturado no modelo operacional.”

O estudo indica ainda que 97% dos executivos reconhecem o valor estratégico da IA, mas apenas 5% afirmam obter um retorno significativo do investimento. A utilização da IA varia entre gerações e países. Na Europa, existem diferenças evidentes ao nível do uso e da aplicação, com a Espanha a liderar na adoção frequente. A Europa está a avançar na adoção da IA, mas a um ritmo mais lento do que outras regiões, devido a menor confiança e investimento público mais limitado.