O acordo entre os Estados Unidos e o Irão, anunciado no domingo, e que deve ser assinado esta sexta-feira, teve efeitos distintos nas matérias-primas energéticas e nos metais. No caso do petróleo e do gás natural foram penalizadas, na segunda-feira, de 5% e 6%, enquanto o ouro e a prata estavam a valorizar 2% e 4% até à hora de fecho deste artigo.

O petróleo foi uma das matérias-primas mais fortemente penalizadas com o anúncio do acordo de paz que vem reabrir o Estreito de Ormuz, ponto fulcral no transporte desta matéria-prima energética, que assegura 20% da oferta mundial. O petróleo esteve a negociar a um mínimo de três meses durante a sessão de segunda-feira.

O brent caía 4,91% para os 83,04 dólares por barril e o crude desvalorizava 5,37% para os 80,32 dólares. No âmbito do acordo está previsto também negociações de 60 dias, entre Estados Unidos e Irão, e o fim do bloqueio norte-americano ao Irão. A reabertura do Estreito de Ormuz deve acontecer num prazo de 30 dias como avançado pela agência iraniana Mehr.

O analista da IG, Tony Sycamore, citado pelo “The Guardian”, referia que os países devem aproveitar a reabertura das negociações, entre Estados Unidos e Irão, para “repor os stocks esgotados de [petróleo] e repor as reservas estratégicas”, adiantando que “as negociações eram complexas, principalmente em relação às questões nucleares” e que tendo isso em conta era “difícil imaginar o preço do crude a cair muito mais no curto prazo”.

As reservas de petróleo estão a cair ao longo dos últimos meses devido às disrupções provocadas pelo conflito no Médio Oriente. O outlook da agência de energia norte-americana (EIA), divulgado a 9 de junho, salientava que os mercados petrolíferos globais “continuam altamente voláteis”, dado que o tráfego marítimo “muito limitado” através do Estreito de Ormuz levou os produtores de petróleo do Médio Oriente a reduzirem a produção de crude em mais de 11 milhões de barris/dia em maio, em comparação com os níveis pré-conflito. “Esta queda na produção resultou em grandes reduções nos stocks globais para satisfazer a procura”, acrescentou a agência.

“De acordo com as nossas projeções, esperamos que os stocks globais de petróleo caiam em média 6,3 milhões de barris/dia no segundo trimestre de 2026 e 7,6 milhões de barris/dia no terceiro trimestre de 2026. Os stocks de petróleo nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) atingirão, na nossa previsão, os seus níveis mais baixos desde 2003”, sublinhou.

O analista da PVM Oil Associates, Tamas Varga, citado pela RTE, considerou que vai “levar tempo” para que o petróleo se aproxime do nível pré-crise de 20 milhões de barris por dia a fluir através deste estrangulamento [Estreito de Ormuz]. “As estimativas para a retoma completa do tráfego variam de semanas a meses”, acrescentou.

“Os investidores financeiros estão, portanto, simplesmente a pedir emprestado o fornecimento físico futuro, daí a atual queda dos preços do petróleo. A lenta retoma resultará possivelmente num défice de oferta ao longo de 2026”, disse Tamas Varga.

O economista-chefe da Allianz Global Investors (Allianz GI), Christian Schulz, referiu que apesar da queda no preço do petróleo, verificada na segunda-feira, este está um terço acima dos níveis previstos para o início de 2026, com os contratos de futuros ainda a rondar os 80 dólares até ao final do ano.

“Estes níveis elevados devem refletir uma combinação de perturbações persistentes no fornecimento devido a danos relacionados com a guerra, excesso temporário de procura resultante da recomposição de stocks e um prémio de risco persistente ligado ao Estreito de Ormuz. Posto isto, se o fornecimento for retomado e os preços do petróleo se mantiverem nestes níveis, os riscos para o crescimento global deverão diminuir”, adiantou Christian Schulz.

O gás natural europeu foi também penalizado durante a sessão de segunda-feira. Este chegou a cair 6% para os 44 euros. Já o gás natural norte-americano foi menos penalizado. Este descia 1,3% para os 3,07 dólares.

“Um alívio de pressões com custos energéticos é sempre bem recebido, pois retira pressões inflacionistas e, por conseguinte, diminui probabilidades de subidas de juros mais agressivas por parte dos bancos centrais. Isto numa semana em que Fed, Banco de Inglaterra e banco do Japão se pronunciam sobre as suas políticas monetárias”, reagia a research do Millennium.

Metais beneficiam com acordo

Por outro lado o ouro e prata beneficiaram com o acordo entre os Estados Unidos e o Irão.

No caso do ouro subia 2,59% para os 4.348 dólares por onça e a prata valorizava 4,15% para os 70,79 dólares por onça. A platina também subiu ao registar um ganho de 4,83% para os 1794 dólares por onça.

Com estes desenvolvimentos, ocorridos no domingo, que culminaram com um acordo entre norte-americanos e iranianos, não deixa de ser interessante a previsão lançada pela Midas Funds na semana passada.

O gestor de carteiras da Midas Finds, Thomas Winmill, citado pela CBS News, ainda num contexto em que não existia acordo entre Estados Unidos e Irão, previa que o ouro terminasse “2026 com uma valorização de cerca de 10% face aos valores atuais, situando-se na casa dos cinco mil dólares por onça”.

Mas tal previsão estará também dependente do fator inflação. “Depende da resposta à inflação dos bancos centrais em todo o mundo, mas principalmente da Reserva Federal norte-americana (Fed). Se a resposta for aumentar as taxas de juro para combater a inflação, como fez Paul Volker — presidente da Fed nas décadas de 1970 e 1980 —, então os preços do ouro vão baixar”, diz Thomas Winmill.

“Uma inflação mais baixa pode reduzir um pouco a urgência em relação à proteção contra a inflação. Se os mercados acreditarem que a Fed conseguiu controlar a inflação, alguns investidores podem voltar a investir em ativos de risco [ou seja existir um desinvestimento em ouro]”, disse o managing director da plataforma digital de ouro Monetary Metals, Hiren Chandaria, em declarações à CBS News.

Ações beneficiam com acordo

O mercado de ações beneficiou também com o acordo no Médio Oriente. As principais bolsas europeias estiveram a negociar no verde durante o dia tendo fechado a sessão de segunda-feira na sua maioria com a mesma tendência. O DAX (Alemanha) subiu 1,15% para os 24.895,00 pontos, o CAC 40 (França) valorizou 0,40% para os 8.384,01 pontos, e o FTSE 100 (Reino Unido) desvalorizou 0,38% para os 10.431,74 pontos. O AEX (Países Baixos) desceu 0,52% para os 1.075,52 pontos, o IBEX 35 (Espanha) subiu 1,45% para os 19.035,78 pontos, e o FTSE MIB (Itália) valorizou 0,66% para os 51.839,50 pontos. O PSI (Portugal) desceu 0,52% para os 9.046,15 pontos.

O Nikkei (Japão) fechou a subir 4,99% para os 69.317,50 pontos, e a bolsa de Shangai (China) subiu 1,61% para os 4.096,47 pontos.

O Kospi (Coreia do Sul) encerrou a valorizar 5,20% para os 8.545,98 pontos.

O analista da Hargreaves Landsdown, Matt Britzman, referiu, citado pela BBC, que o acordo entre norte-americanos e iranianos deram aos investidores um “motivo claro para reduzir parte do prémio de risco geopolítico que pairava” sobre os mercados.

O economista-chefe da Allianz Global Investors (Allianz GI), Christian Schulz, considera que no meio de um possível acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irão, os mercados estão a “precificar uma redução do risco, mas não a sua eliminação”, o que torna a perspetiva macroeconómica “mais resiliente, embora ainda frágil”.

Christian Schulz adiantou que apesar do acordo prever a reabertura do Estreito de Ormuz, um período de negociações de 60 dias, e ainda o alívio de sanções e compromissos sobre o programa nuclear iranianos, os detalhes “permanecem incompletos e sujeitos a novas negociações”.

Para o economista chefe da Allianz GI o risco de que este último anúncio se volte a revelar prematuro “continua a ser significativo”.

Christian Schulz considera que a recuperação nos mercados de risco, como por exemplo o de ações, “parece provável, mas pode ser limitada” por fatores como por exemplo a política monetária dos bancos centrais.

“O ambiente reflacionista continua a desafiar os mercados obrigacionistas, enquanto os riscos contínuos ainda sustentam um dólar norte-americano relativamente resiliente em relação ao euro e a outras moedas”, acrescentou o economista-chefe da Allianz GI.