A soja começou a ser cultivada na China para consumo humano, há 5000 anos, tendo dominado a produção mundial até à década de 1930. Desde aí, deu tantas voltas com dinâmicas tão variadas, passando a China, em tempo relâmpago, de maior produtor a maior importador mundial. Alterações, como estas, não acontecem sem profunda mossa (económica, política e social) e sem choques de estratégias (ou até guerras) entre países, sobretudo quando o “domínio do mando político” é ou pode ser muito “beliscado”.

Em menos de um século e, designadamente, após a Segunda Guerra Mundial, a soja rompe com os usos tradicionais, seguindo caminhos para além da alimentação, integrando-se como input (matéria-prima) em fileiras complexas de produção, onde se destacam o óleo e lubrificantes, as farinhas alimentares, os alimentos compostos para animais, a indústria farmacêutica, tornando-se assim uma das commodities agrícolas de maior “fôlego” e, neste contexto, desencadeando rivalidades e mudanças geopolíticas entre as grandes potências mundiais, com destaque para a China e Estados Unidos, mas não deixando de atingir países como o Brasil, a Argentina e alguns estados europeus.

Estas alterações tão rápidas da geopolítica da soja iniciaram-se, no essencial, com os EUA que, com a Segunda Grande Guerra, reforçaram ainda mais o seu papel motor na economia mundial.

Japão captura a Manchúria

Era a zona da Manchúria quem dominava a produção e as exportações de soja. No período antes da Segunda Guerra, com a invasão e ocupação pelo Japão, começa a saga da mudança do circuito da soja, primeiro desviada para os interesses japoneses, privando os EUA do acesso privilegiado que tinha até então. A deslocalização da produção colocou o continente americano em primeiro plano, com destaque para os Estados Unidos.

Por outro lado, a industrialização da China, integrada numa vasta reforma económica, acelerou esta dinâmica. O processo de industrialização absorve muitas áreas do campo chinês, subtraindo hectares para urbanismo, zonas industriais e infraestruturas. Desde meados dos anos 1980, a China construiu mais de 50 grandes aeroportos. O campo chinês não só perde superfície agrícola cultivável, como perde pessoas: durante um certo período, as perdas para as cidades e zonas económicas especiais foram da ordem dos 15 milhões de camponeses por ano.

Estados Unidos, o maior produtor de soja

Tudo isto conjugado levou a que os EUA se transformassem no maior produtor mundial de soja, com a China a abandonar cada vez mais a produção e a abastecer-se no estrangeiro. Com a redução da área de terras de cultivo, a China escolheu produzir trigo e milho, por serem mais rentáveis, reduzindo a produção de soja apesar do aumento do consumo.

Por volta do ano 2000, com a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC), o mercado agroalimentar chinês tornou-se ainda mais aberto e deficitário. A soberania alimentar começou a acusar indícios de fragilidade devido à elevada dependência no abastecimento de soja para alimentação da sua pecuária, sobretudo de porco. O défice da balança alimentar atingiu níveis preocupantes, e a estratégia entrou em revisão, não só pelos valores importados, mas sobretudo pelos perigos da elevada concentração de fornecedores, em que os EUA assumiam um lugar de destaque.

A China soube “jogar” com a importação de soja para responder às tarifas de Trump, desviando drasticamente as importações para o Brasil, afetando os produtores de soja americanos, na sua maioria republicanos, e criando sérios problemas políticos a Trump, que teve de entrar na subsidiação e na negociação com a China.

De novo, a China em mudança

A China defende que as indústrias agro, encaradas em termos de soberania alimentar, estão ao mesmo nível da soberania de defesa do país. O défice atual da balança comercial agrícola é da ordem dos 124 mil milhões de dólares, com as empresas fornecedoras demasiado concentradas num leque reduzido de países.

O governo avança por dois caminhos para a sua solução: o desenvolvimento de estufas para a redução de produtos vegetais importados, geridas mediante inteligência artificial, e a redução da dependência de proteínas vegetais de origem do continente americano, designadamente dos EUA e Brasil, onde a importação de soja tem um peso específico.

A China já começou a produzir proteínas microbianas, dominando 70% do mercado mundial. Esta estratégia poderá reduzir, num prazo de 15 anos, as importações chinesas dos EUA em 86% e do Brasil em 36%, revolucionando o mundo da soja e acicatando a disputa tecnológica entre China e EUA.