O ex-ministro da Economia António Costa Silva considerou hoje, em Luanda, que Portugal adotou medidas tímidas face à crise energética e aos estragos da tempestade Kristin, alertando que setores inteiros da economia nacional ficaram sem resposta adequada.
Costa Silva falava hoje à Lusa, em Luanda, à margem da apresentação do estudo “Banca em Análise”, da Deloitte, questionado sobre o posicionamento de Portugal perante a crise desencadeada pelo conflito no Médio Oriente e as suas implicações para a economia nacional.
O académico considerou que Portugal tem adotado “um posicionamento na segunda fila, a assistir aos acontecimentos, a tentar não criar grandes ondas”, considerando que a preservação da relação com os Estados Unidos é “fulcral” para um país atlântico.
“A administração Trump é temporária, mas o parceiro americano é fulcral para Portugal”, justificou, alertando para o enfraquecimento do eixo atlântico dentro da União Europeia após a saída do Reino Unido.
No que diz respeito à resposta à crise energética, o ex-ministro disse que as medidas adotadas pelo Governo “são tímidas” e “era necessário mais”, manifestando preocupação com a combinação de duas crises: o conflito no Médio Oriente e os estragos da tempestade Kristin, que atingiu duramente a indústria de componentes para automóveis, os moldes e a fabricação automóvel, concentrados no eixo Leiria-Aveiro.
A tempestade Kristin atingiu Portugal em 28 de janeiro de 2026 com rajadas superiores a 200 quilómetros por hora, provocando destruição generalizada na região Centro e deixando cerca de 1,7 milhões de pessoas sem eletricidade, levando o Governo a declarar situação de calamidade em cerca de 60 municípios.
Em poucas horas, a tempestade provocou estragos significativos em habitações, empresas, explorações agrícolas, infraestruturas rodoviárias e ferroviárias e equipamentos públicos, tendo o Governo aprovado um pacote de apoios com um potencial até 2,5 mil milhões de euros.
“As empresas hoje estão em economias de redes e, se elas deixam de aparecer e estão muito tempo ausentes, vai ser mais difícil recuperarem”, advertiu Costa Silva, lamentando a ausência de medidas de reposição da capacidade produtiva nesses setores.
O gestor e académico defendeu que, em matéria de combustíveis, o modelo do anterior Governo (que integrou) devia servir de referência, recordando “uma panóplia de medidas”, da redução do IVA dos combustíveis ao apoio ao gasóleo profissional, aos transportadores e à logística.
“O Estado não deve ficar com aquilo que resulta do aumento dos preços dos combustíveis — deve devolver às pessoas, através da redução do IVA, tudo aquilo que resulta dos aumentos verificados”, defendeu, reconhecendo que a medida é “criticada pelos economistas” por ser “uma espécie de medida cega”, mas contrapondo que, em 2023, “ajudou muita gente que mais precisava”.
O anterior Governo liderado por António Costa aplicou uma descida do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP), que devolveu aos consumidores a receita adicional gerada pela subida dos preços.
Sobre o impacto económico da crise energética para Portugal, Costa Silva previu “um crescimento muito anémico este ano”, recordando que a inflação atingiu 3,2% em maio.
Questionado sobre o que alteraria no seu Plano de Recuperação e Resiliência se o elaborasse hoje, o autor da Visão Estratégica para o PRR português disse que expandiria as agendas mobilizadoras — cerca de oito mil milhões de euros em investimento —, apesar de terem sido “talvez das partes do PRR que melhor funcionaram, porque as empresas é que dirigiram todo esse processo”.
Destacou nomeadamente as agendas da saúde, do mar e da inteligência artificial, esta última pela sua capacidade de transformar a administração pública. “O que precisamos é de não digitalizar a burocracia”, alertou.
O especialista em energia defendeu também o papel das grandes empresas, relatando um episódio que o marcou enquanto ministro, quando um CEO de uma grande empresa lhe confessou ter “medo de divulgar os lucros” devido à reação da opinião pública e dos meios de comunicação.
“Nós hostilizamos as empresas, hostilizamos os lucros, hostilizamos aquilo que são os meios para o país criar riqueza”, lamentou.
“Não pode haver empresas sem ter lucros — que país é que estamos a construir”, questionou, ressalvando que as empresas devem “operar dentro do quadro legal e serem sancionadas quando não observem esse quadro”.
Mas “à partida desconfiar, hostilizar e tratá-las de forma indevida não ajuda nada ao investimento e ao desenvolvimento do país”, acrescentou.