Um estudo do Boston Consulting Group (BCG) coloca as instituições financeiras como o setor mais rentável para os acionistas, com um retorno total de 30,2% em 2025. O levantamento aponta que o setor parte de uma base sólida após um ciclo de recuperação, mas alerta que o verdadeiro teste começa agora: transformar esse reforço em crescimento sustentável, com tecnologia e inteligência artificial (IA) como alavancas centrais.

Segundo a consultora, o retorno é justificado por uma “recuperação real e duradoura” da rentabilidade, com a rendibilidade dos capitais próprios acima do custo de capital em muitos mercados e melhoria generalizada dos rácios price-to-book. Os múltiplos price-to-earnings, no entanto, mantiveram-se praticamente inalterados, sinal de que os investidores exigem provas de crescimento estrutural.

Para a banca europeia e portuguesa, o contexto é particularmente relevante. O programa NextGenerationEU, com um volume potencial de 650 mil milhões de euros, cria uma oportunidade concreta de procura de crédito duradoura na Europa. “O desafio já não é apenas proteger resultados: é construir motores de crescimento escaláveis”, destaca o estudo.

Clara Albuquerque, managing director & partner da BCG em Lisboa, reforça: “A próxima vantagem competitiva será conquistada por quem conseguir transformar a produtividade de forma estrutural, integrar IA no centro do modelo operativo e converter essa capacidade em crescimento escalável.”

O relatório aponta a IA como o “principal catalisador” desta nova etapa, mas alerta que não deve ser tratada como uma camada adicional de eficiência, mas como uma alavanca de reinvenção profunda dos processos, funções e arquitetura organizacional. Instituições que aplicam IA de forma transversal já capturam ganhos materiais em produtividade, receita e redução de perdas.

O estudo também defende uma revisão da alocação de capital, com deslocação progressiva da prioridade de dividendos e recompra de ações para investimentos em tecnologia, inovação e expansão comercial. Além disso, o regresso das fusões e aquisições ao centro da agenda estratégica abre três rotas de valor: reforço de escala no negócio principal, expansão para segmentos atrativos e alienação de ativos sem dimensão competitiva.

“Em Portugal, isso significa encarar a transformação não como um exercício tático de redução de custos, mas como uma aposta estratégica em competitividade e crescimento de longo prazo”, acrescenta Clara Albuquerque. O setor financeiro tem hoje uma “oportunidade rara” para agir a partir de uma posição de força, mas o contexto continua exigente: pressão competitiva de operadores não bancários, evolução dos ativos digitais e maior transparência proporcionada pela IA vão comprimir margens e alterar a distribuição de valor no ecossistema financeiro.