O Banco Central Europeu cometeu mais um erro de política monetária. Ao subir as taxas de referência em 25 pontos base para 2,25% — a primeira subida em cerca de três anos — o BCE terá agido por puro instinto de autodefesa. Subir taxas agora serve apenas para evitar acusações futuras de inação caso a inflação persista, cenário incerto num contexto de implementação da Inteligência Artificial. É uma decisão que carece de fundamentação perante a atual realidade do bloco europeu.
A falha começa logo pelo diagnóstico. A subida da inflação decorre dos preços da energia e de algumas matérias-primas, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz. É o conflito no Médio Oriente, e não o excesso de procura interna, que tem pressionado os preços. A economia europeia não está sobreaquecida; pelo contrário, debate-se com uma clara desaceleração e obsolescência de parte do modelo industrial, uma performance inferior à dos restantes blocos e, para já, uma ausência de pressões salariais que ameacem enraizar a inflação. Subir juros não altera o preço do petróleo. Além disso, ao contrário do ciclo de 2022-2024, quando o sobreaquecimento pós-pandemia e as pressões salariais justificavam algum aperto, a atual subida de preços tem uma raiz estritamente exógena. Aliás, a própria Christine Lagarde acabou por expor esta contradição ao afirmar literalmente que “a inflação irá descer em 2027 devido ao recuo dos preços da energia” — uma admissão de que a convergência da inflação para a meta resultará de fatores externos e não da política monetária.
Para agravar o erro, o BCE revelou incapacidade de leitura do momento de mercado ao não acautelar o desbloqueio mais rápido do Estreito de Ormuz. A realidade pós-reunião evidenciou essa falha: com as perspetivas de normalização, o preço do barril de Brent já regressou aos níveis de março, neutralizando o principal fator que sustentou o aperto monetário. E, como as Euribor já tinham subido há semanas, a economia já pagava juros mais altos bem antes de o BCE subir taxas.
Numa fase em que a Europa necessita urgentemente de investir para melhorar a competitividade e garantir investimentos significativos em infraestruturas e na defesa — processos dependentes de financiamento e emissão de dívida — encarecer o crédito significa deprimir ainda mais a atividade e dificultar a atuação dos governos.