Onze anos depois, as ações do BCP voltam a valer mais de um euro e deixam de ser uma penny stock (termo utilizado nos mercados financeiros para designar ações que negoceiam abaixo de uma unidade da sua moeda de referência).
Foi em 2015 a última vez que as ações do BCP negociaram acima de um euro por ação. Nos últimos 11 anos, o banco foi sempre uma penny stock e nem o reverse stock split de 2016, em que 75 ações foram reagrupadas numa só, conseguiu retirar-lhe esse estigma.
Na altura, o valor ajustado das ações saltou artificialmente para cerca de 1,34 euros, de forma a evitar que a cotação continuasse em frações de cêntimo. No entanto, a tendência de queda que se seguiu empurrou rapidamente o título para baixo de um euro nos meses seguintes.
O então CEO do BCP, Nuno Amado, defendeu a fusão das ações por considerar que o reduzido valor unitário dos títulos “penaliza a mensagem de banco”. Mas a cotação continuou a cair, derretendo o investimento dos acionistas.
O BCP fez uma longa travessia do deserto desde que, em 2007, rebentou a guerra de poder pelo controlo do banco, na sequência da sucessão de Jardim Gonçalves. Uma crise que se refletiu, nos anos seguintes, na forte desvalorização das ações.
Foi já sob a liderança de Miguel Maya que o banco começou a reverter anos de perdas para os acionistas. Isto depois de um longo período em que as contas do banco foram penalizadas pelas elevadas provisões para riscos de litigância no Bank Millennium, na Polónia. O problema teve origem no facto de, até 2008, o banco detido em 50,1% pelo BCP ter concedido crédito à habitação indexado ao franco suíço, aproveitando as taxas de juro mais baixas. Posteriormente, a moeda suíça valorizou-se fortemente face ao zloty polaco, fazendo disparar o capital em dívida e as prestações mensais das famílias, que recorreram aos tribunais contra o banco.
Depois da crise financeira de 2008, o BCP passou vários anos a reajustar o balanço, a reforçar provisões para crédito malparado de grandes devedores, a vender carteiras de crédito em incumprimento — assumindo, na maioria dos casos, perdas significativas — e a desinvestir em negócios que não faziam parte da sua atividade principal.
O esforço compensou. A subida das ações do BCP tem sido consistente ao longo de 2024, 2025 e do primeiro semestre de 2026, impulsionada pela apresentação de fortes resultados líquidos, pela retoma do pagamento de dividendos e pelo anúncio de programas substanciais de recompra de ações.
Ainda no mês passado, o BCP aprovou um programa de recompra de ações próprias no valor de 407,5 milhões de euros.
A contribuir para a subida desta semana das ações do único banco cotado em Portugal esteve também a recente redução das tensões geopolíticas globais, na sequência da assinatura do acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irão. O acordo reforçou o otimismo dos investidores relativamente ao setor bancário europeu e aumentou a confiança dos analistas no título. Nas últimas semanas, grandes casas de investimento, como o Morgan Stanley, reviram em alta o preço-alvo do banco, impulsionando a pressão compradora.
Mas o dado mais relevante é o valor de mercado que o BCP atingiu esta quinta-feira: 15,1 mil milhões de euros. Um valor muito superior ao que a administração liderada por Jardim Gonçalves designava por “linha da vida”. O conceito referia-se a um valor de mercado de referência para o BCP e justificou, por exemplo, a Oferta Pública de Aquisição falhada sobre o BPI, em março de 2006. A lógica era simples: quem estivesse avaliado abaixo dos 10 mil milhões de euros corria o risco de desaparecer.
Miguel Maya, atual CEO do BCP, já veio desmistificar essa referência. Numa das apresentações de resultados afirmou que “o que para nós é relevante não é se são 10 ou sete [mil milhões de euros de valor em bolsa]. Para nós é relevante que o banco seja um bom investimento para os acionistas e que os investidores particulares e institucionais tenham aqui um ativo com capacidade estável de geração de resultados e de pagamento de dividendos”.
Sobre a recente valorização das ações do BCP, e sem mostrar grande convicção de que este patamar veio para ficar, afirmou que “o patamar de um euro por ação é meramente simbólico e tem o significado que cada pessoa lhe quiser atribuir”.
“A evolução do BCP, a valorização nos últimos anos, expressa muito trabalho, realizado ao longo de muitos anos e desenvolvido por muitas pessoas”, comentou ainda o CEO do Millennium BCP, Miguel Maya.
“Para nós é relevante que o banco seja um bom investimento para os acionistas”, tem defendido o banqueiro.