O crédito à habitação manteve em 2025 uma trajetória de crescimento em Portugal, impulsionado pela descida das taxas de juro, pela subida dos preços da habitação e pelo reforço do papel dos jovens até aos 35 anos, que beneficiaram da garantia pública.
Segundo o Banco de Portugal, que apresentou o Relatório de Acompanhamento dos Mercados de Crédito (RAMC) de 2025, o aumento dos montantes contratados foi mais rápido do que o número de novos contratos, refletindo também a valorização média das casas em cerca de 17%. O supervisor destaca que o mercado continuou a sentir o impacto da estabilização das taxas de referência e da dinâmica do emprego, enquanto a compra de casa ficou mais cara.
O montante total de novos créditos à habitação concedidos em Portugal registou um crescimento significativo de 34,9% em 2025, atingindo os 23.399 milhões de euros, impulsionado pela tendência decrescente das taxas Euribor e por medidas como a Garantia do Estado. O número de novos contratos subiu 11,5%, passando de 119.875 para 133.602. Consequentemente, o montante médio dos novos empréstimos fixou-se em 175.141 euros, um aumento de 21,1% face aos 144.660 euros registados no ano anterior, num contexto marcado pela subida dos preços das casas e pela resiliência do mercado de trabalho.
No final de 2025, as instituições tinham em carteira cerca de 1,33 milhões de contratos de crédito à habitação (mais 2,1% face a 2024), aos quais correspondia um saldo em dívida de 111,7 mil milhões de euros (mais 11,6%).
Na contratação em 2025, 18,8% dos novos contratos de crédito para habitação própria e permanente e 21,3% do montante concedido foram de beneficiários da Garantia Pública para jovens até aos 35 anos, contribuindo decisivamente para o aumento da contratação.
Os outros créditos hipotecários continuaram a ter um peso reduzido no total do mercado, diminuindo face ao ano anterior: passaram de 25,4% para 21,9% do número de contratos celebrados, e de 13,4% para 10,4% do montante concedido. No final do ano, as instituições tinham em carteira cerca de 426 mil contratos deste tipo (menos 7,2%), com um saldo em dívida de 13,1 mil milhões de euros (menos 3,5%), representando 24,3% do número total de contratos e 10,5% do saldo em dívida.
Foram celebrados, em média, 11.134 contratos de crédito à habitação por mês, correspondentes a um montante médio mensal de 1.949,9 milhões de euros. O montante concedido e o número de contratos aumentaram em todos os trimestres face ao período homólogo, embora a um ritmo progressivamente mais moderado.
O prazo médio dos contratos em carteira manteve-se relativamente estável (de 33,6 para 33,5 anos), enquanto o prazo médio da contratação da casa própria se fixou em cerca de 32 anos (mais um ano do que em 2024). Nos contratos celebrados em 2025, a maturidade mais representativa situou-se no escalão entre 35 e 40 anos, concentrando 34,6% do total, seguida pelo escalão de 30 a 35 anos (25,8%). No final do ano, 28,9% dos contratos em carteira tinham prazos contratados de mais de 35 a 40 anos.
Taxa mista domina, mas taxa variável ganha terreno
A taxa mista manteve-se como a modalidade mais contratada em 2025, representando 75% do total em número e 75,4% em montante (abaixo dos 82,1% e 81,5% de 2024, respetivamente). Em contrapartida, a taxa variável ganhou espaço, pesando 18,7% no número de novos contratos e 18,6% no montante, mais 4 pontos percentuais face a 2024. A taxa fixa permaneceu residual, estagnada nos 6%.
No total do stock da carteira a 31 de dezembro de 2025, a taxa variável mantinha-se maioritária com 68,1% dos contratos e 50,6% do saldo em dívida, enquanto a taxa mista correspondia a 28,1% dos contratos e 44,2% do saldo em dívida.
Nos contratos com taxa mista celebrados em 2025, o spread médio fixou-se em 0,75 pontos percentuais (p.p.), uma redução de 0,04 p.p. face a 2024, com 94,7% dos novos contratos indexados a um spread entre 0,5 e 1 p.p. A Euribor a 6 meses continuou a ser o indexante mais frequente, representando 67,6% do número de novos contratos e 66,7% do montante, seguida da Euribor a 12 meses (31,8% em número e 32,7% em montante).
Reembolsos e renegociações voltam a recuar
Os reembolsos antecipados e as renegociações voltaram a diminuir em 2025, aproximando-se dos níveis de 2022. O número de amortizações antecipadas recuou 16,2% para 153.092, totalizando um montante de 8.366 milhões de euros (menos 7,2%), numa evolução que coincide com o fim da suspensão temporária da comissão por reembolso antecipado, cessada a 31 de dezembro de 2025. As renegociações de contratos registaram uma quebra expressiva de 27,0%, caindo para 45.539 operações.
Crédito ao consumo sobe em 2025
O mercado de crédito aos consumidores manteve uma rota de crescimento em 2025, com uma subida de 4% no número médio mensal de contratos e de 11% no montante total concedido face ao ano anterior, alcançando uma média mensal de 142.924 contratos e 760,6 milhões de euros no último trimestre.
Os segmentos de crédito pessoal e automóvel foram os principais motores deste dinamismo. O crédito pessoal cresceu 12,7% face a 2024, passando a representar a maior fatia do montante total concedido (44,8%), enquanto o crédito automóvel aumentou 12,2%, com um peso de 39,4% do mercado. O crédito renovável perdeu expressão, registando uma variação modesta de 2,5% e fixando o seu peso em 15,8%.
A taxa média do financiamento ao consumo — medida pela TAEG média — desceu para 12,6% no final de 2025, interrompendo a trajetória de subida dos anos anteriores e ficando abaixo dos 12,9% registados no arranque do ano.
Malparado diminui na habitação, sobe no consumo
No crédito à habitação, o rácio de incumprimento diminuiu tanto em número de contratos como em montante ao longo do biénio, fechando dezembro de 2025 em torno dos 0,1% para a habitação e 0,3% para o crédito hipotecário em geral. Em sentido inverso, o rácio de incumprimento no crédito aos consumidores registou um ligeiro aumento: em percentagem do montante, subiu de 1,1% para 1,2%; em número de contratos, avançou de 4,5% para 4,7%.
Intermediários de crédito garantem mais de metade do montante concedido
Os intermediários de crédito passaram a assumir um papel preponderante no setor. No mercado de crédito à habitação e hipotecário, o seu peso estabilizou em 57% tanto em 2024 como em 2025. No crédito aos consumidores, a sua relevância aumentou para 50,6% do montante total (face a 49,9% em 2024). Por segmento, destacaram-se no crédito automóvel, onde intermediaram 82,6% do montante, seguido pelo crédito renovável (48,1%) e pelo crédito pessoal (23,0%).
No final de 2025, estavam autorizados em Portugal 6.216 intermediários de crédito, a esmagadora maioria (6.179) diretamente pelo Banco de Portugal e 37 registados noutros países da União Europeia. Do total em atividade, cerca de 8 em cada 10 atuam no mercado do crédito aos consumidores: 62,0% dedicados exclusivamente ao crédito ao consumo, 21,8% ao crédito à habitação e hipotecário, e 16,2% a operar em ambos os segmentos.
O RAMC 2025 reforçou a análise dos mercados de crédito, alargando o âmbito à evolução da carteira, ao incumprimento e aos intermediários de crédito.