O estudo “Impacto Socioeconómico do Setor Cervejeiro em Portugal”, desenvolvido pela Nova School of Business and Economics (Nova SBE) para a APCV – Cervejeiros de Portugal, apresentado durante a Cimeira que reuniu, em Lisboa, as várias associações cervejeiras europeias, sublinha a importância transversal da indústria, com efeitos diretos e indiretos na restauração, hotelaria, turismo, agricultura e logística.

De acordo com o estudo, a atividade cervejeira assegura emprego direto, indireto e induzido – 170.283 postos de trabalho em Portugal, representando cerca de 3% da população ativa nacional. Na prática, por cada emprego direto na indústria cervejeira geram-se 68 postos de trabalho na economia portuguesa.

O segmento sem álcool foi o principal motor de crescimento em 2025. A categoria registou um crescimento de 11,45%, significativamente acima da média dos últimos anos, situada entre os 6% e os 8%. Este segmento representou cerca de 27% do crescimento total do mercado doméstico, contribuindo com mais de 14 mil hectolitros adicionais para um crescimento global de 55 mil hectolitros. Contudo, apesar desta trajetória dinâmica que reflete a forte aposta da indústria na inovação e na diversidade de oferta, a categoria ainda apresenta uma margem de progressão muito significativa em Portugal. Atualmente, a penetração da cerveja sem álcool no mercado nacional é de apenas 8%, um valor modesto quando comparado com o mercado vizinho de Espanha, onde esta categoria já representa 34% do consumo de cerveja.

Para Carlota Burnay, secretária-geral dos Cervejeiros de Portugal, “a evolução da cerveja sem álcool demonstra a capacidade do setor para inovar e responder às novas expectativas dos consumidores”, sublinhando que esta tendência “é o resultado de décadas de investimento em tecnologia, qualidade e inovação”.

Uma das especificidades do mercado português continua a ser o peso do consumo fora de casa. Cerca de 70% da cerveja é consumida no canal HoReCa (hotéis, restaurantes e cafés), o valor mais elevado da Europa, refletindo “a forte dimensão social da cerveja na cultura portuguesa”.

Num contexto europeu de estagnação — e, em alguns casos, contração — Portugal destacou-se pela resiliência. A produção nacional cresceu 1,73% e as vendas aumentaram 0,88%, colocando o país, a par de Espanha, entre os poucos mercados europeus com evolução positiva.

Para Rui Lopes Ferreira, presidente dos Cervejeiros de Portugal, “quando falamos de cerveja, falamos também de milhares de empresas, trabalhadores e comunidades que dependem desta cadeia de valor e do seu forte efeito multiplicador na economia portuguesa”.

Em termos fiscais, o setor gerou em 2025 mais de 331 milhões de euros em receitas diretas para o Estado, embora o impacto global ascenda a cerca de 2,3 mil milhões de euros, considerando impostos diretos e indiretos. O estudo destaca ainda que “cada euro de valor acrescentado bruto gerado diretamente pela indústria cervejeira traduz-se em 18,37 euros na economia portuguesa”.

Apesar da relevância económica, persistem desafios ao nível da fiscalidade. A cerveja continua sujeita à taxa máxima de IVA e ao Imposto sobre o Álcool e as Bebidas Alcoólicas (IABA), ao contrário do vinho.

Rui Lopes Ferreira assinala que “não defendemos a eliminação deste imposto. Defendemos previsibilidade. … Um congelamento plurianual do IABA permitiria às empresas planear investimentos de longo prazo”.

O setor conta atualmente com cerca de 100 cervejeiras em Portugal, 95% das quais pequenas e médias empresas, refletindo um tecido empresarial dinâmico e em transformação.