A China avança, a passos largos, por este caminho da competição tecnológica. Até onde?
Múltiplos cenários dizem-nos que, a prazo, a China sairá vencedora. Aliás, é tema quase assente que o Ocidente, sob a batuta dos EUA, está em perda progressiva de poder no Mundo. Há até quem (especialistas altamente qualificados e de elevado prestígio) aponte datas para o país, líder do Ocidente, deixar de o ser (2035), transformando-se, num país banal, cujo sinal forte seria o dólar passar a ter um peso correspondente à dimensão da economia americana. Muitos desses especialistas dizem que o barco já se move em águas do século da Ásia. Tudo dito e alicerçado em estudos de grandes bancos e companhias de seguros desse mesmo Ocidente.
Para bem da Humanidade, seria bom que se pudesse dizer que, desta competição, o Mundo seria o vencedor. Os resultados seriam mais bem repartidos e chegariam com maior rapidez às pessoas. Mas, nada disso passa ainda de uma utopia! A estruturação política e económica existente, as estruturas de poder ainda dominantes, decorrentes de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial, …), criadas pelo Ocidente, que tudo faz para as preservar, não o permitem.
Nem sei, se tão cedo teremos, como desafio, um outro tipo de competição de finalidades mais humanas!
O Sul Global, com os BRICS à cabeça, apesar das múltiplas contradições que enfrentam entre si e dentro de si, vão a passo e passo construindo e colocando degraus na escada do poder, para um poder novo, certamente, estruturado, de forma bem diverso e melhor repartido, em termos de interesses, na base de polos mundiais que se articularão, de maneiras bem diferentes, das que, hoje, vigoram.
Em que pé se encontra este combate competitivo?
Neste artigo de opinião, procurar-se-á uma ideia geral sobre esta problemática, aproveitando a última versão do trabalho do Critical Technology Tracker do Australian Strategic Policy Institute (ASPI), instituição de carácter misto, tipo Think Tank, financiada pela Austrália, complementado por elementos retirados de uma entrevista a Charu Chanana, especialista de estratégia da Saxo Bank.
Nesta entrevista pode ler-se: “Em chips, a NVidia está em competição com a SMIC (chinesa). A Microsoft está sendo substituída pela Alibaba e Tencent (chinesas). Nos veículos elétricos, BYD e Xpeng rivalizam com a Tesla (Musk – EUA)”.
A China possui, assim, segundo Charu Chanana, empresas em todas as áreas, prontas a competir com as grandes tecnológicas (TECS) dos EUA.
A revista observa ainda que a China não procura, forçosamente, as soluções de modelos de IA mais inovadores, mas concentra-se nas soluções e produtos mais eficientes, procurando obter uma autonomia completa do estrangeiro no desenvolvimento da IA, a fim de não depender das restrições dos EUA sobre exportações como os chips topo de gama da NVidia, com proibição absoluta de venda pelo governo dos EUA ou, como muito recentemente, também sucedeu com a suspensão total da venda de dois produtos (alta gama) da Anthropic a estrangeiros, por alegadas razões de segurança nacional, quando o que se pretende é preservar a vantagem tecnológica americana no campo da IA.
Por seu lado, o lançamento do modelo chinês de IA, Deep Seek, em finais de Janeiro de 2025, causou tanto abalo sobre a NVidia que, na bolsa de Nova York, teve uma queda nas ações nunca vista, “eliminando cerca de 600 mil milhões de dólares em valor de mercado”, num só dia. Mas, a razão da queda não foi a surpresa do aparecimento, mas a quebra do mito (a perda do monopólio) de que a IA era um feudo das grandes TECS dos EUA pelos orçamentos ilimitados que requeriam. E a Deep Seek aparece na base de custos muito mais baixos e com uma performance de qualidade.
Avançando um pouco. O estudo da ASPI identifica 74 tecnologias críticas (áreas de inovação e investigação estratégicas para a soberania e competitividade dos países, como a IA, a Biotecnologia, Semicondutores (chips), entre outras), nas quais a China lidera 66 e os EUA as restantes 8 (finais 2025). Informações recentes da ASPI apontam que a China está a aproximar-se dos EUA em três áreas críticas destas oito, sendo a IA uma delas.
Situação passada e futuro
No passado, a competição tecnológica pode ser entendida como assente numa lógica de “guerra comercial”, ou seja, os EUA, na tentativa de bloquear os avanços tecnológicos da China, usaram todos os mecanismos, desde as sanções, proibições e fortes controlos de exportação de produções de alta tecnologia, procurando impor a empresas associadas não americanas a mesma conduta (proibir exportar). É conhecida a situação do forte controlo de exportação dos semicondutores (chips de alta tecnologia) imposta à NVidia e a duas empresas não americanas TSMC (Taiwan) e ASML (Holanda), tentando, desta forma, impedir o acesso da China a esses chips e tentando impingir-lhe outra gama tecnológica, menos avançada, até com falhas tecnológicas, facilmente identificadas pelas empresas chinesas que recusaram a sua compra, procurando desta forma retardar os avanços tecnológicos na China.
Todas estas medidas criaram um efeito “boomerang”, levando a China a acelerar a sua investigação e produção no caminho da autonomia, tendo, em vários casos, avançado com a apresentação de produtos bem menos caros, penetrando em mercados cativos dos EUA. Uma perda para os EUA, a dois níveis.
No futuro, o que seria desejável, a nível da IA, embora com avanços e recuos, é uma transição para uma fase de maturidade competitiva, até porque começam a descortinar-se campos diferentes de especialização. Os EUA a liderarem modelos nas fronteiras da inovação original e a China a liderar a implementação prática industrial e a escala comercial. Por outro lado, constata-se que a China não disputa o lugar dos EUA. Procura antes liderar, de forma independente, as tecnologias de futuro, reduzindo, assim, as dependências externas, nomeadamente nos campos da computação quântica e dos chips alternativos.
No campo da IA, sem dúvida, a área que dominará a sociedade mundial e a economia nos próximos anos – com o aparecimento da Deep Seek, deu-se um processo de encolhimento da distância entre os dois países, pelo que a estratégia de competição tende a diferenciar-se e a consolidar-se.
O que poderá resultar, se não se caminhar no sentido de uma competição minimamente cooperante, é que se formem dois ecossistemas tecnológicos, desconectados e de padrões globais, com alicerces diferentes.
Isto levará a uma partição e a um alinhamento dos países em que o Sul Global e os BRICS tenderão a alinhar com a China, até porque as condições de cooperação experimentadas do passado são mais favoráveis ao desenvolvimento dos países, não de imposição de modelos, nem de dependência.
Conjugando estas diversas dinâmicas, com a perda lenta do dólar na participação do mundo financeiro, somos levados a concluir que economistas conceituados, como Jeffrey Sachs e vários prémios Nobel, terão razão quando afirmam que o Ocidente está à beira do abismo e que quanto menos permeável for às mudanças, maior e mais rápida será a sua quebra de hegemonia e maiores os estilhaços, sobretudo na Europa, que não está a saber “divorciar-se” dos EUA, em tempo, de forma a construir o seu rumo.