A Apple e a União Europeia estão em conversações consideradas “construtivas” sobre o lançamento da nova versão da Siri, equipada com inteligência artificial (IA), na Europa. A reunião, conforme relatado pelo Financial Times (FT), focou-se em estratégias para a Apple lançar a sua assistente renovada sem incorrer em multas milionárias por violação das regras de concorrência do bloco.

A gigante tecnológica chegou mesmo a pedir a Bruxelas que revogasse parte do seu regulamento digital, o Digital Markets Act (DMA), que já resultou em coimas para a empresa e é um ponto de tensão significativo entre a UE e o presidente norte-americano Donald Trump.

A nova Siri, descrita como um chatbot similar ao ChatGPT ou Claude, com acesso a dados pessoais, é vista por investidores como crucial para provar a competitividade da Apple em IA. Contudo, a Apple afirmou que não disponibilizará a funcionalidade nos iPhones e iPads na UE ainda este ano, devido à exigência do DMA de conceder a assistentes rivais acesso semelhante aos dados do dispositivo.

O diretor de marketing da Apple, Greg Joswiak, afirmou que “isto não é nenhuma tentativa da nossa parte de sermos punitivos em relação ao DMA: trabalhámos muito arduamente para tentar evitar este desfecho”. Joswiak acrescentou que “a Comissão não aceitou as nossas propostas nem se envolveu de forma significativa connosco”.

Por outro lado, funcionários da UE afirmaram que a Apple está a pedir uma isenção de 18 meses das obrigações de “interoperabilidade”, o que consideram inaceitável. A Comissão Europeia rejeitou o que chamam de “férias regulatórias”, que prejudicariam os concorrentes.

O impasse gerou forte reação pública contra a Comissão, com centenas de e-mails de consumidores a acusar Bruxelas de privar os europeus de novas tecnologias. Um responsável da UE relatou que um porta-voz da Comissão recebeu até ameaças de morte.

Em novembro, a Apple propôs uma solução técnica chamada “Trusted System Agent” — uma camada de software entre os dados do dispositivo e modelos de IA de terceiros, que permitiria a assistentes rivais aceder a informações pessoais sem acesso total. No entanto, a Apple ainda não construiu o agente e aguarda garantias da UE.

Um responsável da Comissão disse ao FT que o contacto com a Apple sobre a ideia foi limitado e que não havia detalhes concretos sobre o funcionamento do agente, acusando a Apple de “se focar em obter luz verde para adiar o cumprimento”. O confronto com a Apple toca no cerne do DMA, que visa garantir igualdade de concorrência no mercado digital.