
Os empresários alemães estão descontentes com a proposta de simplificação e corte fiscal apresentada pelo governo liderado por Friedrich Merz, alertando que os 10 mil milhões de euros previstos em baixas de impostos poderão não ser suficientes para dar o impulso de que a economia necessita. Em vez de um estímulo significativo, o receio é que este pacote abra caminho para uma nova “década perdida”, com a maior economia da Europa a estagnar.
O Financial Times consultou vários diretores executivos e líderes empresariais germânicos a propósito da proposta do Executivo para reduzir impostos, um objetivo que estes empresários partilham, mas onde gostariam de ver maior ambição. Em concreto, o risco de nova “década perdida” é real, apontam.
Do lado da Siemens, o diretor executivo, Roland Busch, fala na “necessidade de mais reformas”, apontando os elevados custos do trabalho para lá do salário (sobretudo as contribuições para o sistema de segurança social) como “uma desvantagem competitiva significativa”. Para Busch, sem uma abordagem mais ampla, incluindo a redução dos encargos sociais e a modernização da burocracia, o corte fiscal de 10 mil milhões de euros será insuficiente.
Já Oliver Steil, diretor do TeamViewer, reconheceu o “sinal positivo” que a proposta transmite, mas teme que “partes não sejam grandes o suficiente para terem um impacto”. Segundo Steil, o sinal político é bem-vindo, mas o valor é demasiado pequeno para mudar a trajetória de declínio económico alemão.
Outros líderes empresariais falaram sob anonimato, apontando a decisões de investimento adiadas ou canceladas e à possibilidade de mudarem as suas sedes de país. Um CEO de um grupo industrial revelou que “já temos planos para transferir parte da produção para fora da Alemanha, se o ambiente fiscal não melhorar”.
Merz e a sua coligação apresentaram recentemente os planos para cortar 10 mil milhões de euros em impostos, ou o equivalente a 0,21% do PIB alemão em 2025. À altura, o chanceler falou num “grande dia para a Alemanha”, projetando ganhos consideráveis com as alterações. No entanto, a dimensão do corte é vista como tímida por muitos analistas, especialmente num contexto de inflação elevada e custos energéticos crescentes.
De notar que, ajustado à inflação, o PIB da maior economia europeia mantém-se ao mesmo nível que em 2019, antes da pandemia. Em particular, a indústria, outrora o grande destaque do motor económico do bloco europeu, vive uma longa crise motivada por anos de desinvestimento, um modelo esgotado e a concorrência crescente de outras potências industriais, com a China à cabeça. Empresários e economistas alertam que, sem reformas estruturais profundas, o país arrisca um longo período de baixo crescimento.