A Bloomberg noticiou recentemente que os fundos de private equity estão a comprar empresas familiares portuguesas à medida que a geração de fundadores envelhece. É verdade, e acredito que vai continuar a ser verdade nos próximos anos. Mas essa notícia conta apenas metade da história. A outra metade, aquela que interessa à esmagadora maioria dos empresários portugueses, é que muitos nunca receberão uma oferta de um fundo. E, se nada mudar, muitas empresas vão simplesmente fechar a porta.

Segundo dados da PwC, citados na própria notícia, as empresas familiares representam entre 70% e 80% do tecido empresarial português, empregam cerca de metade da força de trabalho e pesam perto de 65% no PIB. Destas, só uma fatia mínima tem dimensão para chamar a atenção de um fundo de private equity, que precisa de escala, de uma equipa de gestão já montada e de uma tese de saída daqui a cinco ou sete anos para justificar o investimento.

A oficina com quinze trabalhadores, a fábrica de componentes numa aldeia industrial do Norte, a distribuidora regional, o pequeno grupo de retalho com três lojas: nenhuma destas empresas vai receber uma chamada de Londres ou de Nova Iorque. E é aí que o problema é mais sério. A grande empresa sem sucessor tem um comprador à espera; a pequena, por norma, não tem nenhum. Tem, quando muito, um concorrente disposto a ficar com os clientes e liquidar o resto ou o encerramento, com know-how, postos de trabalho e décadas de reputação a desaparecerem sem deixar rasto.

Isto devia incomodar qualquer empresário a aproximar-se dos sessenta anos sem plano de sucessão. Adiar a decisão, tratar o tema com o “resolve-se mais tarde”, é apostar o património de uma vida em que apareça, por sorte, alguém interessado à última da hora. E esse alguém sabe que o vendedor já não tem alternativa, por isso paga menos do que a empresa vale. Quem não prepara a sucessão não está a proteger a empresa que construiu, está apenas a garantir que ela vale menos no dia em que for forçado a vendê-la.

Este é o outro lado do mesmo problema: um universo de pequenas empresas sem sucessor e sem comprador não se resolve sozinho, nem por decreto. Se do lado da oferta existem milhares de empresas viáveis sem sucessão definida, importa olhar para quem pode estar do lado da procura. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, esse comprador não tem de ser um fundo de investimento.

Há dois tipos de comprador em Portugal com capacidade para preencher este espaço. Um é o empresário que já gere um negócio e continua a crescer devagar, à moda antiga, quando tem à disposição empresas com clientes, equipa e operação já validados para comprar e integrar, horizontalmente, geograficamente ou por sector. Insistir em construir do zero o que já existe ali ao lado, só porque nunca pensou na aquisição como estratégia de crescimento, é desperdiçar tempo que não se recupera. O outro é o profissional que passou anos a subir uma hierarquia corporativa e sonha com liberdade, mas continua a adiar por achar que a única forma de a conquistar é começar um negócio do zero. É um erro caro: comprar uma micro ou pequena empresa com histórico, clientes e receita comprovada encurta bastante o caminho até à independência financeira, e evita a maior parte do risco que costuma matar os negócios criados de raiz nos primeiros anos.

Nada disto acontece sozinho. Um fundador sem sucessor, um empresário à procura de crescimento por aquisição e um profissional à procura de independência raramente se encontram sem que alguém organize esse encontro. Durante muito tempo, esse trabalho de criar oportunidades e estruturar praticamente não existia no segmento das micro e pequenas empresas em Portugal, ao contrário do que já acontecia nas grandes operações empresariais. Isso está a mudar.

Felizmente, o mercado começa a profissionalizar-se e já existem plataformas e intermediários especializados em ligar quem quer vender a quem quer comprar ou investir neste segmento, com o rigor de avaliação, due diligence e estruturação contratual que este tipo de operação exige. O que falta já não é infraestrutura para o mercado funcionar. É que fundadores, empresários e profissionais passem a recorrer a estes mecanismos, em vez de continuarem a fechar transações de forma informal, entre conhecidos, sem avaliação independente nem contratos que protejam ambas as partes. Isso só tem um efeito: destruir valor.

A geração que construiu o tecido empresarial português está a chegar ao fim do ciclo, em cima e em baixo da pirâmide. No topo, já há quem compre. Na base, o comprador ainda não está organizado como categoria, mas existe e tem hoje mais capacidade de gestão e mais apetite pelo risco calculado do que qualquer geração anterior teve. É a esta geração que cabe agora um papel que ainda não assumiu: não se trata só de comprar uma empresa e deixá-la como está; trata-se de pegar em microempresas e fazê-las crescer para pequenas, de pequenas levá-las a médias, e de médias levá-las a grandes.

Quem continua a adiar a decisão de comprar, ou quem é fundador e continua a adiar a decisão de vender, não está a ganhar tempo. Está a perder a parte mais valiosa da oportunidade: o momento em que ainda há margem para negociar bem, e para ser quem transforma a próxima microempresa portuguesa na grande empresa de amanhã.