O Governo alemão está a preparar um conjunto de exigências para eventuais negociações com o UniCredit sobre o futuro do Commerzbank, numa indicação de que Berlim está a mudar a sua estratégia, passando de tentar travar a aquisição para procurar influenciar os seus termos, avançou esta sexta-feira a Bloomberg, citando fontes próximas do processo.

Segundo as mesmas fontes, ainda não foram agendadas conversações entre o Governo alemão e o banco italiano, mas espera-se que estas venham a acontecer.

O Commerzbank, no qual o Estado alemão detém uma participação de 12%, mostrou-se assim disponível para falar com o UniCredit, após o banco italiano ter elevado para 47,6% a sua posição na instituição alemã.

Entre as principais exigências de Berlim estará a preservação do papel do Commerzbank no financiamento das pequenas e médias empresas alemãs (Mittelstand), incluindo a manutenção da sua rede internacional e das operações de financiamento ao comércio externo.

O executivo liderado por Friedrich Merz deverá também defender que o Commerzbank continue cotado separadamente em bolsa e exigir garantias de que Frankfurt permanecerá um centro relevante para o banco após uma eventual aquisição.

As ações do Commerzbank reduziram as perdas após a notícia e seguiam a cair cerca de 1,3% durante a manhã, enquanto os títulos do UniCredit agravavam as descidas para cerca de 1,6%.

A oposição do Governo alemão tem sido um dos principais obstáculos à tentativa do presidente executivo do UniCredit, Andrea Orcel, de assumir o controlo do Commerzbank, processo iniciado há cerca de dois anos. No entanto, a posição de Berlim tem vindo a suavizar-se desde que uma “proporção considerável” dos acionistas aceitou a oferta pública lançada pelo banco italiano, afirmou esta semana o chanceler Friedrich Merz.

Após a obtenção das necessárias autorizações regulatórias, o UniCredit deverá passar a deter uma participação próxima dos 50% no Commerzbank, o que lhe poderá conferir uma maioria de votos nas assembleias de acionistas suficiente para aprovar decisões estratégicas.

Perante este cenário, o Governo alemão considera ter poucas opções para impedir a tomada de controlo, concentrando agora os seus esforços em garantir salvaguardas para o futuro da instituição, segundo as fontes citadas pela Bloomberg.

Na quarta-feira, Friedrich Merz afirmou que não se opõe, em princípio, à operação, embora tenha reiterado críticas à forma como o UniCredit conduziu o processo, sublinhando a importância do Commerzbank no financiamento da economia alemã.

Questionado pela Bloomberg, o porta-voz do Governo alemão, Sebastian Hille, recusou comentar, remetendo para as declarações de Merz. O UniCredit e o Commerzbank também não comentaram.

De acordo com fontes próximas do banco italiano, o UniCredit está disponível para negociar diretamente com Berlim e admite fazer concessões para responder às preocupações do Governo, incluindo compromissos de apoio às empresas alemãs, em particular às PME.

O plano estratégico atualmente delineado pelo UniCredit prevê reduzir a extensa rede internacional de escritórios do Commerzbank e concentrar a atividade sobretudo na Alemanha e na Polónia. A presidente executiva do Commerzbank, Bettina Orlopp, tem defendido que essa estratégia prejudicaria o modelo de negócio do banco.

As garantias sobre a manutenção dos postos de trabalho deverão ter menor peso nas negociações do que a proteção da atividade estratégica do banco, embora Berlim possa procurar um compromisso para evitar despedimentos compulsivos. O UniCredit propôs anteriormente eliminar até 7.000 postos de trabalho caso conclua a aquisição, plano que motivou críticas dos representantes dos trabalhadores.

Segundo as fontes citadas pela Bloomberg, o Governo alemão poderá ainda exigir um preço superior ao apresentado na oferta anterior, que tinha considerado insuficiente. Continua também por decidir quando, ou se, o Estado alemão venderá a participação de cerca de 12% que ainda detém no Commerzbank.

O UniCredit detém atualmente uma participação económica de 47,6% no Commerzbank. Isto porque, em resultado da OPA conseguiu a adesão de mais 17,60% do capital do banco alemão durante o período da oferta.

O UniCredit já detinha uma base de 26,77% em ações diretas e contava com 3,22% através de contratos de derivados liquidados em ações.

Devido às ações próprias detidas pelo Commerzbank (que não têm direito a voto), o poder de voto do UniCredit situa-se em quase 49,65%, deixando-o no limiar do controlo maioritário