Portugal é um país de brandos costumes. Durante as últimas décadas, desenvolveu-se na população uma espécie de sabedoria popular que estabeleceu a primazia da competência sobre a integridade. O muito ouvido «rouba, mas faz!» aplicou-se a tantos e tantos políticos, com particular expressão no poder local. Ainda hoje, se percorrêssemos o país de lés a lés, não faltariam exemplos.

Trata-se de um trade-off a que os portugueses se habituaram como mecanismo de sobrevivência num país onde a incompetência e a total falta de ética coexistem em muitos responsáveis políticos. Já nos damos por satisfeitos com alguma capacidade de execução: «que se lixem a ética e a lei!».

Mas, nas últimas semanas, foi inaugurado um novo adágio que se pode resumir em: «faz mal, mas tenta». Da observação do que se tem escrito e dito sobre o sério problema com os exames nacionais resulta a tentativa de fazer passar a ideia de que o ministro não merece qualquer crítica porque procurou inovar. Recuperamos a ética, mas apenas no domínio das intenções, e passamos desta vez a competência para segundo plano.

Os argumentos em defesa do ministro abundam, mas chegam a roçar o ridículo. Li e ouvi pessoas afirmarem, sem se rirem, que a digitalização do processo de classificação das provas — note-se que nem sequer se trata de uma digitalização propriamente dita — constituía uma reforma estrutural do sistema educativo e que não se deveria criticar tamanha coragem reformista. Ouvi também indivíduos chocados com a resistência à mudança.

Não há aqui qualquer surpresa. Processos de mudança em larga escala, sobretudo quando envolvem tecnologia, geram resistência. Essa resistência é natural, previsível e precisa de ser gerida. Aliás, carece ainda de caracterização rigorosa. Portugal continua a ser avesso à mudança e não existe uma cultura robusta de melhoria contínua nas instituições públicas.

Mas o ministro, que reestruturou o Ministério, certamente colocou em posições-chave pessoas da sua confiança para liderar este processo. A iniciativa deveria ter sido pilotada com maior rigor, através de ciclos de experimentação rápidos e relativamente seguros, até existir uma garantia razoável da sua eficácia. Afinal, tratava-se de um processo crítico.

Tentar e falhar deve ser encorajado. Mas o Ministério da Educação não é uma startup com baixo risco de perda. As consequências podem ser elevadíssimas para alunos, professores, pais, funcionários do Ministério e, espera-se, para os próprios responsáveis políticos.

A quem sustenta que tudo não passou de sabotagem, deixo desde já um desafio que já aqui discuti noutras ocasiões: criar uma Administração Pública profissional, independente dos partidos, cuja responsabilidade seja aconselhar o ministro de turno sobre a melhor forma de executar os objetivos políticos sufragados pelos eleitores. Um Civil Service à moda inglesa, que separe a formulação das políticas da sua execução, garantindo maior rigor, continuidade e responsabilização.

O que não podemos é viver num país em que se pode roubar desde que se faça, e fazer mal desde que a intenção seja boa.