
Considera o urso um animal possante e enorme? Saiba que atualmente na verdade é pequeno. Um novo estudo científico intitulado “Pleistocene brown bears from Portugal: Morphometric trends, paleoenvironmental drivers and paleobiological inferences” , publicado na revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology e de acesso aberto traça um retrato detalhado da presença e evolução do urso-pardo (Ursus arctos) em território português há cerca de 22 mil anos, revelando que estes animais atingiram dimensões impressionantes durante o Pleistoceno — muito superiores às atuais.
A investigação analisou mais de 500 fósseis provenientes de seis sítios arqueológicos em Portugal, incluindo as grutas da Furninha, Fontainhas e Caldeirão, permitindo reconstruir a história desta espécie na Península Ibérica. Entre as conclusões mais marcantes está a identificação de indivíduos com mais de 300 quilos na Gruta da Furninha e de um exemplar que poderá ter atingido cerca de 385 quilos nas Fontainhas, colocando-o entre os maiores ursos-pardos alguma vez registados .

Figura 1 . Locais onde restos de Ursidae foram encontrados em Portugal: Vermelho, locais do Pleistoceno analisados neste estudo; locais brancos do Pleistoceno não estudados nesta investigação; azul, sítios pré-históricos do Holoceno; roxo, sítio imperial romano; local amarelo medieval. Ao norte da linha pontilhada verde está a distribuição aproximada de Ursus arctos durante a segunda metade do século XIX. 1, Furninha; 2, Oliveira; 3, Caldeirão; 4, Escoural; 5, Fontainhas; 6, Serra de Molianos; 7, Algar do Vale da Pena; 8, Lorga de Dine; 9, Aroeira; 10, Gruta Nova da Columbeira; 11, Algar de Cascais; 12, Pedreira das Salemas; 13, Gruta das Salemas; 14, Pego do Diabo; 15, Figueira Brava; 16, Pedreira São Bartolomeu dos Galegos; 17, Leceia; 18, Vila Nova de São Pedro; 19, Monte Molião; 20, Castelo de Leiria. (Para interpretação das referências à cor nesta legenda da figura, o leitor deve consultar a versão web deste artigo.)
Os investigadores destacam ainda que estes ursos apresentavam características robustas e, em alguns casos, semelhanças com o extinto urso-das-cavernas, sugerindo uma possível convergência ecológica entre espécies. Apesar disso, o estudo confirma que não há evidência da presença de Ursus spelaeus (urso-das-cavernas) em Portugal, contrariando algumas hipóteses anteriores .
Ao longo do tempo, porém, a dimensão dos ursos foi diminuindo. Durante o Holoceno — período mais recente da história geológica — os machos pesariam, em média, cerca de 260 quilos, enquanto atualmente os valores rondam os 140 quilos. Esta redução significativa é atribuída, sobretudo, à pressão humana e à alteração dos ecossistemas .
Legenda: Peso e tamanho de ursos pardos antigos em Portugal. Crédito: D. Estraviz-López
O estudo aponta ainda para uma grande variabilidade no tamanho dos ursos ao longo do tempo e do espaço na Península Ibérica, refletindo mudanças ambientais e ecológicas. Os autores sublinham que estes resultados ajudam a compreender não só a evolução da espécie, mas também o impacto das atividades humanas na biodiversidade ao longo de milénios.
Além disso, a investigação abre caminho a novos trabalhos, nomeadamente através de análises genéticas e isotópicas, que poderão aprofundar o conhecimento sobre a dieta, mobilidade e adaptação destes animais.
No seu conjunto, o estudo reforça a ideia de que o território português teve um papel relevante na história natural do urso-pardo europeu — uma espécie que, apesar de hoje mais pequena e rara, já foi dominante e imponente na paisagem ibérica.

Legenda: Materiais selecionados de Ursus arctos portugueses das seis localidades estudadas: a) M1 esquerdo da Gruta do Escoural (Escral121966) em vista oclusal. b) M1 esquerdo da Gruta do Caldeirão (P-11886) em vista oclusal. c) Terceira falange da Gruta da Oliveira (O17–226) em vista lateral. d) M3 direito da Serra de Molianos (SM219.40) em vista oclusal. e) Fémur esquerdo da Gruta das Fontainhas (FO·I-51) em vista anterior. f) Hemimandíbula esquerda da Gruta da Furninha (GFP-1328) em vista labial. g) Caixa craniana da Gruta da Furninha (GFP-1338) em vista lateral esquerda. h) M2 esquerdo da Gruta da Furninha em vista oclusal. (tradução livre).