O fenómeno atmosférico El Niño faz com que algumas áreas do mundo se tornem mais secas e outras mais húmidas, com impacto no crescimento económico, inflação, cadeias de abastecimento, fluxos comerciais e preços das matérias-primas. Dana Bodnar, economista sénior da Atradius Crédito y Caución, afirma que “as perturbações agrícolas podem reduzir o abastecimento alimentar, contribuindo para uma maior inflação dos preços dos alimentos. As condições meteorológicas extremas podem danificar infraestruturas, perturbar a produção e aumentar os custos logísticos. Ao mesmo tempo, os governos podem enfrentar necessidades crescentes de despesa para apoiar as comunidades afetadas e reparar ativos danificados.”

Os países próximos do Pacífico são geralmente os mais afetados. Quanto aos setores mais expostos, destaca-se a agricultura, que acresce o este risco aos efeitos do aumento dos preços dos fertilizantes devido ao conflito no Médio Oriente. Espera-se que a colheita de trigo na Austrália, com peso à escala mundial, diminua cerca de 9 milhões de toneladas em 2026/27, refletindo a combinação dos efeitos das alterações climáticas com o El Niño.

A inflação alimentar também pode agravar o risco de crédito soberano. O aumento das contas de importação e dos custos de apoio aos agricultores mais afetados reduzem as reservas cambiais e ameaçam a estabilidade macroeconómica. O setor dos transportes é outro dos mais afetados, pois pode sofrer perturbações devido a inundações, tempestades e danos nas infraestruturas. O desvio de mercadorias pode atrasar as entregas e aumentar os custos nas cadeias de abastecimento globais.

Além disso, as ondas de calor aumentam a carga nas redes elétricas, enquanto as secas limitam a produção de energia hidroelétrica, afetando o setor energético. Andrew Spiccia, diretor de risco para Singapura, Malásia e Filipinas na Atradius Crédito y Caución, afirma: “Em alguns mercados, esta combinação de procura aumentada e oferta reduzida pode contribuir para preços mais altos da energia e exercer pressão adicional sobre as empresas que já enfrentam custos elevados.”

Deve notar-se que o fenómeno El Niño também pode ter consequências na produtividade, pois as ondas de calor reduzem a qualidade do ar. Isto pode levar as empresas a pedir prazos de pagamento mais longos, atrasar pagamentos aos fornecedores ou aumentar a sua dependência de financiamento externo. Em casos mais graves, pode aumentar o risco de insolvência e incumprimento.

Neste cenário, as empresas do setor alimentar que têm flexibilidade para aproveitar os excedentes onde existam, ou para mitigar riscos através de fornecimento global mais diversificado, estarão melhor preparadas. Além disso, os fabricantes de tecnologias de arrefecimento, soluções de eficiência energética e serviços de resiliência da rede elétrica poderão ter de enfrentar um aumento da procura.