As cinco colunas anteriores descreveram um método que coage, compra, contorna e dissimula. Falta a pergunta que decide tudo: pode durar? A resposta não está nos exércitos nem nos mercados, mas num recurso invisível que todas estas operações consomem e nenhuma repõe. Chama-se confiança, é finita, e é a matéria-prima oculta da reorganização, tanto quanto a sua hipoteca.

Gasta-se depressa e reconstrói-se devagar. Aliados coagidos e rivais enganados guardam memória, e os parceiros rebaixados a vassalos guardam-na ainda mais funda; e a memória não se apaga por decreto. A ordem que os Estados Unidos edificam consome essa reserva a cada gesto: cada ameaça, cada garantia que só vale enquanto convém, é um levantamento sobre uma conta que ninguém volta a alimentar. O método é deslumbrante no imediato e ruinoso no prazo, porque converte oitenta anos de capital de aliança numa sucessão de vitórias avulsas.

Dir-me-ão que a confiança regressa, que a história tem marés. E é verdade. A Hungria, há um ano perdida na órbita iliberal, repõe hoje alianças que se davam por mortas, e quem aposta contra a recuperabilidade da confiança aposta contra o pêndulo da política. Concedo o argumento, mas ele apenas fixa a escala do problema: a confiança volta na geração seguinte, não no mandato seguinte. E é dentro do mandato que a factura vence.

Os riscos são quatro. O primeiro é o tempo, porque a reorganização precisa de anos e dispõe de meses. O segundo é a credibilidade, porque um método assente em encenação rui quando a encenação é vista. O terceiro é o detonador libanês: o entendimento mediado por Washington nunca chegou a ser aplicado, Israel conserva a zona de segurança no sul e o Hezbollah promete combater enquanto durar a ocupação, e o sul do Líbano, dado por pacificado no memorando, é a fractura por onde o edifício pode ruir. O quarto, o mais grave, é a Rússia. A arma que a apertava, o preço do petróleo, oscila com a instabilidade iraniana, que fez o barril subir; mas a direcção mantém-se, e quando o Golfo estabilizar a favor de Washington e o crude iraniano e venezuelano regressar em pleno, o preço vira-se de vez contra Moscovo. Até lá, o desgaste vem por outra via, o ataque ucraniano sistemático às refinarias e terminais, pressão cumulativa e não pontual. O perigo não é que a Rússia resista, é que, reduzida a satélite chinês, imploda sem cadeia de comando e com armas nucleares na mão. Nenhuma reorganização sobrevive a esse cenário.

Resta então a pergunta que fui adiando: isto é o quê? A leitura tranquila fala de uma crise de meia-idade do império americano, agressiva mas recuperável. Prefiro a incómoda, e ofereço-a como aviso e não como profecia. Roma também reorganizou o mundo a seu favor, pôs as legiões ao serviço dos seus interesses e tratou aliados como tributários, e resultou durante séculos. Só que, para administrar um império, a República teve de deixar de ser República. A reorganização não a destruiu, transformou-a naquilo que combatera. É esse o preço escondido: um método que trata todos os laços como transacção acaba, mais tarde, por transaccionar as instituições que o geraram.

E a factura de uma reorganização nunca fica inteira nas mãos de quem a assina. Escorre para quem dela depende, e é aí que esta análise deixa de ser sobre os outros para passar a ser sobre nós. Há na Europa um aliado que ainda não percebeu bem o que lhe está a acontecer. A Estratégia de Segurança Nacional americana trata-a como entrave, pela regulação e pela pretensão de autonomia, e ainda assim persiste em portar-se como sócia de quem a classificou como problema. É o único parceiro que colabora na sua própria contenção, por confundir a memória da aliança com a realidade da hierarquia. A ordem que vem a seguir não reserva lugar a uma Europa que se pensa sócia e é tratada como vassalo.

Se a Europa é a cegueira, Portugal é o lugar onde ela se paga ou se corrige. País de vocação atlântica, senhor de uma das maiores zonas económicas exclusivas do planeta, assente sobre os cabos e as rotas que ligam a Europa às Américas e a África, Portugal tem diante de si dois destinos. Pode ser terminal, simples ponto de passagem de rotas que outros comandam, e então a geografia é dos outros. Ou pode ser nó, lugar que organiza aquilo que por si passa, e então a geografia é sua. A diferença não está na posição, está na decisão, e a decisão tem nomes concretos: investir em Sines, construir capacidade naval, defender os cabos submarinos, converter a posição em poder. Há cinco séculos, Portugal ensinou o mundo a organizar-se por rotas. Seria uma ironia amarga que fosse o último a reparar que o mundo voltou a organizar-se assim.

A destruição que reorganiza não é um fim anunciado nem uma vitória prometida. É uma aposta: que se pode gastar confiança sem nunca a repor, reduzir aliados a vassalos e rivais a peças, e ainda assim sair do outro lado com uma ordem estável. Pode resultar. Mas as reorganizações bem-sucedidas trazem sempre uma factura, e quem a paga quase nunca é quem a assina. Vale mais olhar para esta ordem enquanto ela se desenha do que descobri-la já feita, no dia em que nos exigir a entrada.

Este é o sexto e último texto da série intitulada “A destruição que reorganiza”.